Emoções olímpicas
A medicina moderna, e quase todas as carreiras de saúde, de uma forma geral, consideram a vida emocional como um elemento preponderante a ser levado em conta na hora de compreender as causas de alguma doença ou de algum transtorno. Ou seja, é amplamente aceito que a dimensão psicológica pode estar relacionada entre os fatores desencadeantes ou predisponentes de diversos quadros clínicos. Por isso, um diagnóstico bem feito pode tirar dúvidas quanto a natureza de uma doença e, a partir disso, indicar o tratamento mais adequado.
Assim, uma pessoa que tem crises de desmaios freqüentes possui alguma doença neurológica ou sofre através de seu corpo algo que fora reprimido em sua mente? Uma criança com marcadas dificuldades de aprendizagem sofre de algum déficit no aparelho perceptivo (precisa de óculos ou de aparelho auditivo) ou suas dificuldades são resultado de uma vida mental desorganizada por fortes ansiedades vividas na escola? Um sujeito com insônia estaria com alguma alteração hormonal ou as horas sem dormir vêm à tona como resultado de um impulso irreprimível em se tornar um vigia da casa, como na sua infância, quando não queria que os pais fizessem mais irmãozinhos?
Em geral, tendemos a preferir que as causas de nossas dificuldades sejam emocionais. Quando o clínico exclui o fator físico e orgânico de seu diagnóstico, não é raro que o paciente se alivie com a notícia. "Ah, não tem problema. É psicológico". Como se uma psique fragilizada, desamparada, ou mesmo defeituosa, não fosse um quadro por si só alarmante.
Um exemplo claro do quanto os aspectos psicológicos são determinantes de muitas situações e dificuldades é o que tem acontecido com alguns de nossos atletas nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Senão, vejamos: na ginástica olímpica, o favorito Diego Hypólito erra um salto considerado "fácil" ao final de sua apresentação no solo, cai e perde os pontos necessários para conquistar a medalha de ouro tão sonhada. Aos prantos, não consegue explicar. Também na ginástica, Jade Barbosa, outro talento nacional, não obtém as boas apresentações que tem obtido em outros campeonatos internacionais. Nervosismo, choro, e a medalha continua inédita.
No salto com vara, Fabiana Murer teve um contratempo indigno para o padrão de organização de um país que recebe os Jogos Olímpicos. Parte de seu equipamento fora perdido. Visivelmente transtornada, não teve bom desempenho para se classificar. É compreensível que a disputa tenha o peso do Olimpo e o valor do ouro, mas desorganizar-se internamente diante da adversidade revela um grau desproporcionalmente acentuado de tensão.
Até a campeã seleção de vôlei masculino teve seu momento de desconcentração na partida com a Rússia na primeira fase do torneio, quando as grosseiras falhas da arbitragem levantaram a ira dos atletas que, nervosos, sucumbiram frente aos russos.
Ninguém discute o desejo e o talento desses atletas. Mas fica claro, por esses e outros resultados (sim, há outros), que há uma parte que os competidores não têm conseguido treinar tão bem quanto as táticas, técnicas e movimentos de cada esporte. São as emoções. Ou melhor, o controle das mesmas.
Nossas emoções têm grande impacto em nossas vidas. Como produto de nossa vida instintiva, elas dão o tom a afetos, atitudes, sentimentos e comportamentos. Por sua natureza primitiva e essencial, a emoção tem ampla e marcada influência em diversos processos mentais. E é por isso que elas podem estorvar a concentração num momento decisivo, em que a perícia fina exige um controle interior sobre a vida emocional.
Freud, em suas instruções para analistas, estabelecia que a maneira mais apropriada para ouvir um paciente é com um grau ótimo de neutralidade. O analista, assim, colocaria uma parte de si em contato com o paciente, mas preservaria outras partes, deixando-as em separado do tratamento. O analista, assim, evita fazer julgamentos e reprimendas, e se abstém de juízos de valor, conselhos e preconceitos. Além disso o analista não vive com seu paciente o tipo de intimidade que vive com outras pessoas de sua vida particular. O resultado pretendido é que o paciente consiga se ligar à parte do analista que lhe é mais "útil", que no caso seria a do terapeuta.
O modelo médico é semelhante. Não se espera que um cirurgião opere tranqüilamente a coluna vertebral de uma pessoa que ama, como um filho, por exemplo. Seu julgamento clínico, sua precisão e seus recursos internos estariam comprometidos nessa situação. Assim, o médico procura manter uma distância ótima com seus pacientes.
Essas condutas basicamente se justificam pelos poderosos efeitos das emoções na mente de quem deve realizar um trabalho preciso. Na hora decisiva, a relativa calma é alcançada pela capacidade da mente de separar temporariamente os aspectos emocionais e racionais. Sem isso, o nervosismo toma conta, e o que é fácil vira impossível.
O princípio do olimpismo é esse mesmo: superar limites humanos numa demonstração de capacidades, no afã de atingir níveis excelentes de performance, o que, na antiguidade, representava presentear os deuses com o que os homens tinham de melhor em termos de habilidades.
Vemos, hoje, que até na vida emocional isso tem validade. E esse é, no fim das contas, um desafio ainda maior do que as competições em si. Afinal, a prova maior de nossa condição humana, e que demarca a grandiosa distância dos deuses, é justamente a agonia de nossas emoções.
Assim, uma pessoa que tem crises de desmaios freqüentes possui alguma doença neurológica ou sofre através de seu corpo algo que fora reprimido em sua mente? Uma criança com marcadas dificuldades de aprendizagem sofre de algum déficit no aparelho perceptivo (precisa de óculos ou de aparelho auditivo) ou suas dificuldades são resultado de uma vida mental desorganizada por fortes ansiedades vividas na escola? Um sujeito com insônia estaria com alguma alteração hormonal ou as horas sem dormir vêm à tona como resultado de um impulso irreprimível em se tornar um vigia da casa, como na sua infância, quando não queria que os pais fizessem mais irmãozinhos?
Em geral, tendemos a preferir que as causas de nossas dificuldades sejam emocionais. Quando o clínico exclui o fator físico e orgânico de seu diagnóstico, não é raro que o paciente se alivie com a notícia. "Ah, não tem problema. É psicológico". Como se uma psique fragilizada, desamparada, ou mesmo defeituosa, não fosse um quadro por si só alarmante.
Um exemplo claro do quanto os aspectos psicológicos são determinantes de muitas situações e dificuldades é o que tem acontecido com alguns de nossos atletas nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Senão, vejamos: na ginástica olímpica, o favorito Diego Hypólito erra um salto considerado "fácil" ao final de sua apresentação no solo, cai e perde os pontos necessários para conquistar a medalha de ouro tão sonhada. Aos prantos, não consegue explicar. Também na ginástica, Jade Barbosa, outro talento nacional, não obtém as boas apresentações que tem obtido em outros campeonatos internacionais. Nervosismo, choro, e a medalha continua inédita.
No salto com vara, Fabiana Murer teve um contratempo indigno para o padrão de organização de um país que recebe os Jogos Olímpicos. Parte de seu equipamento fora perdido. Visivelmente transtornada, não teve bom desempenho para se classificar. É compreensível que a disputa tenha o peso do Olimpo e o valor do ouro, mas desorganizar-se internamente diante da adversidade revela um grau desproporcionalmente acentuado de tensão.
Até a campeã seleção de vôlei masculino teve seu momento de desconcentração na partida com a Rússia na primeira fase do torneio, quando as grosseiras falhas da arbitragem levantaram a ira dos atletas que, nervosos, sucumbiram frente aos russos.
Ninguém discute o desejo e o talento desses atletas. Mas fica claro, por esses e outros resultados (sim, há outros), que há uma parte que os competidores não têm conseguido treinar tão bem quanto as táticas, técnicas e movimentos de cada esporte. São as emoções. Ou melhor, o controle das mesmas.
Nossas emoções têm grande impacto em nossas vidas. Como produto de nossa vida instintiva, elas dão o tom a afetos, atitudes, sentimentos e comportamentos. Por sua natureza primitiva e essencial, a emoção tem ampla e marcada influência em diversos processos mentais. E é por isso que elas podem estorvar a concentração num momento decisivo, em que a perícia fina exige um controle interior sobre a vida emocional.
Freud, em suas instruções para analistas, estabelecia que a maneira mais apropriada para ouvir um paciente é com um grau ótimo de neutralidade. O analista, assim, colocaria uma parte de si em contato com o paciente, mas preservaria outras partes, deixando-as em separado do tratamento. O analista, assim, evita fazer julgamentos e reprimendas, e se abstém de juízos de valor, conselhos e preconceitos. Além disso o analista não vive com seu paciente o tipo de intimidade que vive com outras pessoas de sua vida particular. O resultado pretendido é que o paciente consiga se ligar à parte do analista que lhe é mais "útil", que no caso seria a do terapeuta.
O modelo médico é semelhante. Não se espera que um cirurgião opere tranqüilamente a coluna vertebral de uma pessoa que ama, como um filho, por exemplo. Seu julgamento clínico, sua precisão e seus recursos internos estariam comprometidos nessa situação. Assim, o médico procura manter uma distância ótima com seus pacientes.
Essas condutas basicamente se justificam pelos poderosos efeitos das emoções na mente de quem deve realizar um trabalho preciso. Na hora decisiva, a relativa calma é alcançada pela capacidade da mente de separar temporariamente os aspectos emocionais e racionais. Sem isso, o nervosismo toma conta, e o que é fácil vira impossível.
O princípio do olimpismo é esse mesmo: superar limites humanos numa demonstração de capacidades, no afã de atingir níveis excelentes de performance, o que, na antiguidade, representava presentear os deuses com o que os homens tinham de melhor em termos de habilidades.
Vemos, hoje, que até na vida emocional isso tem validade. E esse é, no fim das contas, um desafio ainda maior do que as competições em si. Afinal, a prova maior de nossa condição humana, e que demarca a grandiosa distância dos deuses, é justamente a agonia de nossas emoções.

