Um amor de robô
A mais nova animação da parceria Disney/Pixar é “Wall-e”, do diretor Andrew Stanton, que está atualmente em circuito. Quando assisti ao filme, recentemente, saí do cinema comovido, maravilhado e com a cabeça repleta de idéias. Tentarei escrever sobre algumas delas.
1. “Wall-e” é a história do último robô que restou na Terra, num futuro apocalíptico em que todo o planeta virou um gigantesco depósito de lixo e sucata, um verdadeiro deserto, estéril e sem vida. No filme, já se passaram 700 anos desde que os humanos partiram para viver no espaço, refugiados em colônias de férias de duração indeterminada até que a sujeira do planeta fosse eliminada por completo pelos robôs designados para a faxina global.
Mas algo dá errado, e o robozinho Wall-e fica sozinho, cuidando diariamente, durante séculos, na infindável tarefa de limpar a porcalhada deixada pela nossa espécie.
Um dia, Wall-e recebe a visita de Eva, um robô mais moderno, de reconhecimento, enviado pelos humanos do espaço com a missão de procurar formas de vida vegetal na Terra a fim de verificar se é possível restaurar a vida no planeta. Daí o insólito ocorre: Wall-e se apaixona por Eva, e a aventura começa.
Wall-e e Eva, cada um a seu modo e de acordo com sua programação, procuram a mesma coisa: vida
2. O tema dos robôs com sentimentos humanos não é nada novo. Destaco alguns exemplos da TV e do cinema. Na série “Jornada nas Estrelas” havia o ciborgue Data, que, com um chip especial, podia ativar respostas emocionais como medo, raiva, tristeza, compaixão etc. em seu comportamento, o que lhe trazia muitas dificuldades e alguns aprendizados. Nas trilogias “Star Wars”, os famosíssimos R2-D2 e C-3PO experimentavam e expressavam coragem, medo, alegria, irritação etc. Enquanto R2 é uma versão cibernética de Sancho Pança, C-3PO é claramente um mordomo britânico, cheio de modos.
Mais recentemente, Steven Spielberg explorou o tema no controverso “Inteligência Artificial”, em que um robô-menino se liga afetivamente a sua dona, que assim tenta suprir seu desamparo diante da ausência do filho real. Proposta interessante, que colocou o ator-mirim Haley Joel Osment na difícil tarefa de tornar crível o argumento de que uma máquina é rapaz de emular os sentimentos do mais fundamental vínculo humano: o da mãe-filho.
Em se tratando de relações fundamentais, não se pode esquecer de “O Exterminador do Futuro”, que mostra o jovem John Connor, líder da resistência humana contra a revolta das máquinas, encontrando num frio e inexpressivo Arnold Schwarzenegger a figura de um pai forte e protetor, que nunca tivera.
Tantas histórias com robôs demonstram a onipotente pretensão do homem de conhecer e controlar seus próprios sentimentos, desejos e angústias. Afinal, se posso programar uma máquina para sentir prazer, sofrer ou desejar, é porque eu sou o verdadeiro senhor das emoções. Domino-as tão bem que consigo reproduzi-las num robô.
Mas como se vê, a fórmula básica de Hollywood sempre foi a de colocar atores reais para interpretar esses robôs com sentimentos. Sim, pois até o dróide pequenino R2-D2 continha um ator anão controlando seus movimentos por dentro da fantasia do robô.
Seria possível, então, uma máquina expressar essas emoções nessas histórias? Antes de “Inteligência Artificial” ser produzido por Spielberg, ele era um projeto do ousado diretor Stanley Kubrick, que pretendia usar uma máquina de verdade para ser o personagem central da trama.
Em “Wall-e”, algo parecido com essa proposta surge no resultado final, pois tanto o protagonista quanto sua parceira, Eva, foram desenhados como máquinas mesmo. Nada de sorrisos, dentes, pupilas, sombrancelhas, narizes, ou mesmo vozes para identificar as emoções dos personagens. Aliás, nenhum robô do filme possui forma humanóide. Eles são máquinas mesmo. O aspecto humano dos personagens, no entanto, é muito forte. Esse efeito é obtido graças às situações nas quais eles se envolvem, e nas demonstrações de sentimentos e afetos dos gestos e atitudes.
Esse é um dos pontos mais fortes do filme: a humanização dos personagens não se dá pela sua aparência, mas pelos seus conteúdos.
3. Que conteúdos? Sem dúvida, os sentimentos amorosos. Se acompanharmos as produções da Pixar ao longo dos anos, fica claro que o universo abrangido pelas histórias é exclusivamente pueril. Senão, vejamos: em “Toy Story” e “Monstros S/A”, as fantasias do universo infantil são o pano de fundo da trama; “Procurando Nemo” e “Os Incríveis” tratam de relações familiares; “Carros” e “Vida de Inseto” repetem a fórmula de personagens coloridos e engraçados. Algum traço de maturidade quanto à temática só apareceu mesmo no ano passado, no excelente “Ratatouille”, que mostrava os conflitos dos personagens entre a identidade predestinada pela família e o desejo de ser o que quiser.
“Wall-e” ousa bem mais. É o primeiro filme da Pixar a trazer uma história de amor, implicada com um tipo de maturidade diferente dos amores dos outros filmes citados.
1. “Wall-e” é a história do último robô que restou na Terra, num futuro apocalíptico em que todo o planeta virou um gigantesco depósito de lixo e sucata, um verdadeiro deserto, estéril e sem vida. No filme, já se passaram 700 anos desde que os humanos partiram para viver no espaço, refugiados em colônias de férias de duração indeterminada até que a sujeira do planeta fosse eliminada por completo pelos robôs designados para a faxina global.
Mas algo dá errado, e o robozinho Wall-e fica sozinho, cuidando diariamente, durante séculos, na infindável tarefa de limpar a porcalhada deixada pela nossa espécie.
Um dia, Wall-e recebe a visita de Eva, um robô mais moderno, de reconhecimento, enviado pelos humanos do espaço com a missão de procurar formas de vida vegetal na Terra a fim de verificar se é possível restaurar a vida no planeta. Daí o insólito ocorre: Wall-e se apaixona por Eva, e a aventura começa.
Wall-e e Eva, cada um a seu modo e de acordo com sua programação, procuram a mesma coisa: vida
2. O tema dos robôs com sentimentos humanos não é nada novo. Destaco alguns exemplos da TV e do cinema. Na série “Jornada nas Estrelas” havia o ciborgue Data, que, com um chip especial, podia ativar respostas emocionais como medo, raiva, tristeza, compaixão etc. em seu comportamento, o que lhe trazia muitas dificuldades e alguns aprendizados. Nas trilogias “Star Wars”, os famosíssimos R2-D2 e C-3PO experimentavam e expressavam coragem, medo, alegria, irritação etc. Enquanto R2 é uma versão cibernética de Sancho Pança, C-3PO é claramente um mordomo britânico, cheio de modos.
Mais recentemente, Steven Spielberg explorou o tema no controverso “Inteligência Artificial”, em que um robô-menino se liga afetivamente a sua dona, que assim tenta suprir seu desamparo diante da ausência do filho real. Proposta interessante, que colocou o ator-mirim Haley Joel Osment na difícil tarefa de tornar crível o argumento de que uma máquina é rapaz de emular os sentimentos do mais fundamental vínculo humano: o da mãe-filho.
Em se tratando de relações fundamentais, não se pode esquecer de “O Exterminador do Futuro”, que mostra o jovem John Connor, líder da resistência humana contra a revolta das máquinas, encontrando num frio e inexpressivo Arnold Schwarzenegger a figura de um pai forte e protetor, que nunca tivera.
Tantas histórias com robôs demonstram a onipotente pretensão do homem de conhecer e controlar seus próprios sentimentos, desejos e angústias. Afinal, se posso programar uma máquina para sentir prazer, sofrer ou desejar, é porque eu sou o verdadeiro senhor das emoções. Domino-as tão bem que consigo reproduzi-las num robô.
Mas como se vê, a fórmula básica de Hollywood sempre foi a de colocar atores reais para interpretar esses robôs com sentimentos. Sim, pois até o dróide pequenino R2-D2 continha um ator anão controlando seus movimentos por dentro da fantasia do robô.
Seria possível, então, uma máquina expressar essas emoções nessas histórias? Antes de “Inteligência Artificial” ser produzido por Spielberg, ele era um projeto do ousado diretor Stanley Kubrick, que pretendia usar uma máquina de verdade para ser o personagem central da trama.
Em “Wall-e”, algo parecido com essa proposta surge no resultado final, pois tanto o protagonista quanto sua parceira, Eva, foram desenhados como máquinas mesmo. Nada de sorrisos, dentes, pupilas, sombrancelhas, narizes, ou mesmo vozes para identificar as emoções dos personagens. Aliás, nenhum robô do filme possui forma humanóide. Eles são máquinas mesmo. O aspecto humano dos personagens, no entanto, é muito forte. Esse efeito é obtido graças às situações nas quais eles se envolvem, e nas demonstrações de sentimentos e afetos dos gestos e atitudes.
Esse é um dos pontos mais fortes do filme: a humanização dos personagens não se dá pela sua aparência, mas pelos seus conteúdos.
3. Que conteúdos? Sem dúvida, os sentimentos amorosos. Se acompanharmos as produções da Pixar ao longo dos anos, fica claro que o universo abrangido pelas histórias é exclusivamente pueril. Senão, vejamos: em “Toy Story” e “Monstros S/A”, as fantasias do universo infantil são o pano de fundo da trama; “Procurando Nemo” e “Os Incríveis” tratam de relações familiares; “Carros” e “Vida de Inseto” repetem a fórmula de personagens coloridos e engraçados. Algum traço de maturidade quanto à temática só apareceu mesmo no ano passado, no excelente “Ratatouille”, que mostrava os conflitos dos personagens entre a identidade predestinada pela família e o desejo de ser o que quiser.
“Wall-e” ousa bem mais. É o primeiro filme da Pixar a trazer uma história de amor, implicada com um tipo de maturidade diferente dos amores dos outros filmes citados.
Explico. Wall-e é um robô que compacta o lixo dos humanos e, em sua tarefa sem-fim, coleta uma série de objetos deixados para trás pelas pessoas: isqueiros, talheres, lâmpadas, anões de jardim, sapatos, bonecas, sutiãs etc. E não só objetos: ele grava na memória aquilo que acha mais importante sobre algumas experiências humanas que observa em filmes: apaixonamento, flerte, conquista etc. Aprende a dançar, a namorar e, ao que parece, a desejar a presença e o toque de um outro. De alguma maneira, coletando os resquícios da humanidade, Wall-e desperta em si seus sentimentos humanos e foge à sua diretriz fundamental de viver compactando lixo.
Ou seja, nosso robozinho não sente falta de uma família ou de amigos, mas de alguém para amar.
Nós não somos muito diferentes de Wall-e. Da mesma forma como o pequeno lixeiro faz, nós também vamos juntando uma série de objetos que vão se acumulando em nossa vida psíquica e que, com o desenvolvimento, constituirão diversos aspectos de nossa personalidade. Esses objetos são os diversos sentidos internos de tudo o que existe no mundo real. É como se existissem, dentro de cada um, uma mãe, um pai, um irmão, os amigos etc. Como vivemos várias experiências emocionais com cada uma dessas imagens internas, temos várias mães, vários pais, vários irmãos etc. representados internamente. É uma multidão.
Ao final, também somos coletores de experiências emocionais, às quais imprimimos significados. Somos, portanto, o resultado de uma série de tralhas e tesouros que juntamos e que compõem o que somos.
4. Os humanos aparecem em “Wall-e” como criaturas gordas, ignorantes, dependentes, comilonas, que vivem sentadas em cadeiras especiais, que não notam o mundo ao seu redor e que não sabem nem andar. Tudo isso surge como efeito de duas coisas: a falta de gravidade do espaço, onde eles vivem há séculos, e o atendimento prestado pelos robôs que se ocupam de tudo em suas vidas. Como vivem fechados na colônia espacial onde não falta nada, nem sabem o que é a vida na Terra.
Os humanos do filme são como bebês. Como têm os robôs para fazerem tudo para si, não precisam crescer e nem aprendem a pensar. Tornam-se preguiçosos e trouxas.
Aliás, a palavra “robô” vem do tcheco “robota”, que quer dizer “escravo”. “Wall-e” faz pensar no quanto nós é que acabamos nos tornando escravos das tecnologias que, supostamente, deveriam se submeter aos humanos. A pane recente, ocorrida em São Paulo, no serviço de internet da Telefônica é um claro exemplo do quanto a tecnologia pode nos tornar vulneráveis a nossa própria preguiça.
No filme, Eva e Wall-e devem proteger uma planta que poderá dar nova chance a uma vida na Terra, mas cabe aos humanos reaprender a caminhar com os próprios pés para reconstruir a vida no planeta. Os homens devem aprender a ser homens; quem se limita a ser mimado e cuidado por um outro, vive sempre como um bebê.
A mensagem é ecológica, atual, mas não tira o foco do filme nos sentimentos dos personagens principais. “Wall-e” é mesmo um filme de amor, até porque o robozinho ajuda Eva a completar sua missão como forma de estar junto de sua amada. Talvez essa seja a forma mais feliz de amar: um fazer juntos significativo e duradouro.
5. Além de ser uma história singela e emocionante, “Wall-e” é um filme ousado e corajoso pela escassez de diálogos. As falas são poucas, sendo que os personagens centrais não dizem nada. A expressão da emotividade vem pelos gestos, pela cena, pela música, pelo visual.
A tática é muito inteligente: ao deixar o filme sem falas, a ação passa a ter forte aspecto projetivo, ou seja, o espectador participa da história dando sentido a cada momento dela a partir de suas próprias emoções. O efeito é envolvente, porque a emoção e o humor de cada seqüência, antes de ser compreendida, é sentida diretamente pelo espectador.
Enfim, “Wall-e” é um filme imperdível. Ousado pela inteligência e pela sensibilidade, pode ser um marco para o cinema dito infantil. Foi-se o tempo em que filmes para crianças tinham que ser edificantes para a moral e o caráter. “Wall-e” é mais que isso: trata-se de um filme que fortalece o pensamento e acessa a emoção. E é, na opinião deste blogueiro, um dos mais belos filmes de amor que Hollywood já fez.
Marcadores: cinema, relacionamentos


3 Comments:
a-do-rei!!
rapaz, você está se superando...
quero assistir Wall-e!
ótimo título tbm...
(ãhn, ãhn..)
K-lim, curti muuuito esse texto.. fazia tempo que não lia teu blog, caaara, sempre tenho uma agradável surpresa sobre o quanto vc escreve bem.
saudades!!!
bjo
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