28.4.08

O brilho dos Stones e outros heróis

Em meados de 2006, o diretor Martin Scorsese planejou com os Rolling Stones a realização de duas apresentações especiais da banda, ocorridas em meio à turnê mundial "A bigger bang" (a mesma que trouxe o grupo ao Brasil, naquele mesmo ano, para o histórico show na praia de Copacabana), com vistas a produzir um documentário que servisse de registro, para as futuras gerações, do que seria assistir a um show da maior banda do planeta.

O resultado é o filme "Shine a light", atualmente em circuito nos cinemas e com a trilha sonora disponível em CD duplo. Pude conferir, feliz, a produção. Misturando bastidores, arquivos da banda e, claro, os shows em si, "Shine a light" vale como um presente para todos aqueles que, de verdade, gostam de rock.

Isso porque os Stones não são qualquer banda. Eles são a própria síntese do estilo musical e do estilo de vida que o rock ´n roll veio a representar por gerações. Nenhum ícone da música mundial materializou tão bem a mistura de boas canções, rebeldia, polêmica, sexo, drogas e sucessos. Só eles sobreviveram à histeria da beatlemania, às viagens da psicodelia, à brutalidade do heavy metal, aos embalos da disco music, à anarquia do punk, ao colorido do pop, à melancolia do grunge, e ao bate-estaca da música eletrônica. É claro que, em 45 anos de história, o som da banda sofreu as influências de cada época, mas nunca tergiversou quanto a sua essência. Por isso os Stones são o verdadeiro arquétipo do rock. Quem curte rock talvez ainda não o saiba, mas certamente também gosta de Rolling Stones.

"Shine a light" não consegue (e nem poderia) resumir a carreira da banda, mas pelo menos é uma boa amostra dela. Para tanto, o filme é competente ao amarrar e harmonizar as pontas: sucessos antigos dividem o palco com músicas menos conhecidas, os convidados são personalidades da "velha guarda" (Buddy Guy) e da nova geração (Jack White), e há espaço para gêneros diferentes, do blues ao country. Da mesma forma, o show é conduzido de forma intimista, mas com produção de megashow e, quanto ao músicos, a apresentação é orquestrada por senhores tão enrugados quanto incansáveis.

Confesso que fiquei emocionado em alguns momentos do filme. Sou fã do grupo desde 1995, quando da primeira visita dos Stones ao Brasil. Na época, era ainda um adolescente que, como tantos outros, estava à procura de si mesmo. O tempo passou, mas a paixão continua a mesma. E hoje, ao assistir "Shine a light", consigo enxergar e compreender a importância dos Stones em minha vida.

Explico. Todo adolescente precisa de heróis. Isso porque a adolescência é uma etapa de transição e vulnerabilidade, na qual o indivíduo se fecha para balanço e se abre para crises. Nesse momento de seu desenvolvimento, o indivíduo faz, em termos de personalidade, uma espécie de saldo da própria infância recém-encerrada enquanto enfrenta demandas cada vez mais próximas da vida adulta. É um desafio duplo: lançar-se a grandes desafios próprios do crescimento sem ter relativa exatidão de quem se é, ou do que se quer ser. Ou seja, a adolescência é um período de crises internas, transformações e elaborações.

É a necessidade de ter heróis que faz os adolescentes se apegarem tanto aos seus ídolos. São aquelas figuras significativas do mundo da música, do cinema, da TV, do esporte, das histórias em quadrinhos, dos jogos eletrônicos etc. que serão deixadas de lado no futuro, quando a maturidade os permitir dispensá-los da missão de heróis.

Esses heróis são escolhidos para serem objeto de projeções dos ideais e das aspirações adolescentes, muitas vezes traduzindo ou expressando aspectos ainda não integrados ao "eu" do jovem. Eles são usados como porta-vozes do adolescente, estandartes de causas e conflitos de seu mundo interno.

Com isso em vista, hoje sei que os Stones não me renderam só uma coleção de CDs e DVDs, riffs de guitarras e refrões viciantes. Usei-os como trovadores da trilha sonora de meu mundo adolescente. E que adolescente não acha o mundo um lugar complicado demais? Assim, saber que nem sempre se tem o que se quer pode vir a calhar nas horas de grandes frustrações(*). Isso é tão importante quanto saber reconhecer a maldade dentro de si, diante da descoberta de impulsos não muito bonitos(**). Se possível, é bom aprender que amor e dinheiro não rimam, mas se conjugam numa vida afetiva realisticamente satisfatória(***). E, banalmente, pode ser um alívio celebrar que a excitação sexual de uma mulher pode animar até defunto(****).

O verdadeiro herói é aquele que nos acompanha até o momento em que não precisamos mais dele. Descartado, ele vira uma relíquia guardada no fundo do baú de nossa mente, junto de uma série de outros objetos que internalizamos para constituir o que somos. De lá ele não é mais tão crucial quanto antes, mas de vez em quando, ele volta a jogar alguma luz para fazer lembrar os velhos tempos.

*

Nota para os que não conhecem bem os Stones: há referências a canções famosas dos Stones no penúltimo parágrafo.
(*) "You can´t always get what you want"
(**) "Sympathy for the devil"
(***) "Angie"
(****) "Start me up"


Marcadores: , ,