Da inutilidade do prazer

Não é meu desejo escrever especificamente sobre o aborto, seja em sua defesa ou em oposição a ele. A falta de convicção pessoal sobre o assunto me obriga a me abster. Se por um lado acho muito fácil recomendar ou permitir o aborto a alguém quando não é o destino do próprio filho que se tem em mãos, por outro penso que é muito cômodo optar pela gravidez condenando uma criança a uma mãe que não a deseje quando não é a si mesmo que se impõe tal desamor.
No conflito entre as duas posições, no entanto, uma questão se levanta justamente por não ser feita: o quanto nos permitimos sentir prazer? Mesmo que a polêmica do aborto envolva, num plano geral e explícito, princípios e ideologias com os mais diversos argumentos, num plano particular e subjetivo o debate toca numa questão também problemática, que é a do quanto cada indivíduo vive seus prazeres. Afinal, o cerne do debate é o que fazer com o corpo. Ou, mais especificamente, qual o destino que se pretende dar ao ato sexual. Mesmo que este seja veículo para a vida e para o prazer, a questão do aborto separa essas duas “causas” em lados diferentes.
A psicanálise nos ensina que, na vida instintiva do homem, os vínculos com a vida e o prazer são indissociáveis. Na vida psíquica, tudo o que constrói, cria ou agrega (nossas relações de amor, por exemplo) visa a preservar a vida, gerar prazer e nos poupar da dor. E tudo o que conduz a alguma gratificação (como os nossos desejos, por exemplo), por sua vez, movimenta a vida. A própria vida é, em si, uma ininterrupta tentativa de equilíbrio entre prazer e desprazer.
No mundo externo, contudo, o prazer está longe de ter o valor dado à vida. Aliás, o prazer só é comparado à vida quando recebe o nome de “felicidade”.
Tanto é assim que um grande cacoete de nosso tempo é o pressuposto de que qualquer coisa só tem significado se tiver algum tipo de utilidade prática. São pouquíssimas as coisas que se justificam meramente pelo prazer que produzem. No geral, só importa aquilo que serve para alguma coisa.
Na verdade, esse é um jeito de reprimir muitas possibilidades de prazer. A única forma que resta para vivê-las é disfarçando-as. Assim, um sujeito não escolhe morar num condomínio pelo que aprecia nele, mas pela “qualidade de vida”; da mesma forma, ele pode não contemplar uma obra de arte meramente pela estética, mas pelo seu “valor cultural”; ele não pratica um esporte só pelo jogo, mas pelo exercício; não faz cursos só para saber mais, mas para valorizar o currículo; não come pensando só no sabor, mas nas calorias do prato. E por aí vai.
Esse é o mundo neurótico em que o prazer precisa ser traduzido ou transformado em alguma forma de ser útil, sendo subjugado pela realidade. Só que, na verdade, o prazer não existe para ser útil; ele existe como finalidade.
O debate em torno do aborto é difícil porque suscita uma nova versão desse tipo de conflito, em que o prazer e a realidade novamente se opõem e se excluem. É a receita para um dilema sem fim.




