25.11.07

Da inutilidade do prazer


Já há um bom tempo que governo e sociedade vêm debatendo a descriminalização do aborto. As discussões têm sido reabertas mais amplamente pelos atuais administradores da saúde pública brasileira, o que reacende a polêmica de sempre. A rodada mais recente do debate foi na 13ª Conferência Nacional de Saúde, ocorrida na semana passada em Brasília, em que gestores do SUS e representantes da sociedade civil votaram políticas da área.

Não é meu desejo escrever especificamente sobre o aborto, seja em sua defesa ou em oposição a ele. A falta de convicção pessoal sobre o assunto me obriga a me abster. Se por um lado acho muito fácil recomendar ou permitir o aborto a alguém quando não é o destino do próprio filho que se tem em mãos, por outro penso que é muito cômodo optar pela gravidez condenando uma criança a uma mãe que não a deseje quando não é a si mesmo que se impõe tal desamor.

No conflito entre as duas posições, no entanto, uma questão se levanta justamente por não ser feita: o quanto nos permitimos sentir prazer? Mesmo que a polêmica do aborto envolva, num plano geral e explícito, princípios e ideologias com os mais diversos argumentos, num plano particular e subjetivo o debate toca numa questão também problemática, que é a do quanto cada indivíduo vive seus prazeres. Afinal, o cerne do debate é o que fazer com o corpo. Ou, mais especificamente, qual o destino que se pretende dar ao ato sexual. Mesmo que este seja veículo para a vida e para o prazer, a questão do aborto separa essas duas “causas” em lados diferentes.

A psicanálise nos ensina que, na vida instintiva do homem, os vínculos com a vida e o prazer são indissociáveis. Na vida psíquica, tudo o que constrói, cria ou agrega (nossas relações de amor, por exemplo) visa a preservar a vida, gerar prazer e nos poupar da dor. E tudo o que conduz a alguma gratificação (como os nossos desejos, por exemplo), por sua vez, movimenta a vida. A própria vida é, em si, uma ininterrupta tentativa de equilíbrio entre prazer e desprazer.

No mundo externo, contudo, o prazer está longe de ter o valor dado à vida. Aliás, o prazer só é comparado à vida quando recebe o nome de “felicidade”.

Tanto é assim que um grande cacoete de nosso tempo é o pressuposto de que qualquer coisa só tem significado se tiver algum tipo de utilidade prática. São pouquíssimas as coisas que se justificam meramente pelo prazer que produzem. No geral, só importa aquilo que serve para alguma coisa.

Na verdade, esse é um jeito de reprimir muitas possibilidades de prazer. A única forma que resta para vivê-las é disfarçando-as. Assim, um sujeito não escolhe morar num condomínio pelo que aprecia nele, mas pela “qualidade de vida”; da mesma forma, ele pode não contemplar uma obra de arte meramente pela estética, mas pelo seu “valor cultural”; ele não pratica um esporte só pelo jogo, mas pelo exercício; não faz cursos só para saber mais, mas para valorizar o currículo; não come pensando só no sabor, mas nas calorias do prato. E por aí vai.

Esse é o mundo neurótico em que o prazer precisa ser traduzido ou transformado em alguma forma de ser útil, sendo subjugado pela realidade. Só que, na verdade, o prazer não existe para ser útil; ele existe como finalidade.

O debate em torno do aborto é difícil porque suscita uma nova versão desse tipo de conflito, em que o prazer e a realidade novamente se opõem e se excluem. É a receita para um dilema sem fim.

(22/11/2007)

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15.11.07

Crises de múltipla escolha


Há alguns meses venho acompanhando a trajetória de alguns jovens que conheço e que agora começam (ou reiniciam) a dura etapa das provas de exames vestibulares. No começo desta semana foi divulgada a relação candidato/vaga da Fuvest, um dos principais vestibulares do país e que, também em função disso, serve de referência para uma série de exames de seleção em universidades e outras instituições.

Como era de se imaginar, o indicador da concorrência foi assunto para vários dias entre os vestibulandos, o que é compreensível, já que algumas carreiras chegam a ter mais de cinqüenta candidatos para cada vaga.

A ansiedade despertada por uma disputa que se mostra tão acirrada e que envolve anos de estudos e investimentos é “apenas” mais uma dentre tantas outras que os adolescentes enfrentam nesse período. É que a tensão do vestibulando vai além da assimilação do extenso conteúdo das provas. Na verdade, essa tensão vem de dentro e de fora, ao mesmo tempo.

Internamente, o candidato avalia, a partir do quanto ele se conhece, seus desejos e seus interesses profissionais para encontrar a assim chamada “vocação”. O calvário do vestibular também demanda outras elaborações, como um desligamento gradual da adolescência para o qual acena um caminho rumo à autonomia. E como se não bastasse, há que se lidar com o futuro e todas as fantasias, sonhos, conflitos e projetos inerentes a ele.

Externamente a labuta também não é simples. O mercado de trabalho, o perfil dos cursos e faculdades, as possibilidades realistas de ingresso nelas e de manutenção dos estudos, as pressões que provêm de pais e pessoas próximas, além de outros fatores, tornam o desafio ainda mais amplo.

Ao final de tudo isso, o que se espera do adolescente é que ele desenvolva sua identidade profissional, ou seja, que ele elabore internamente, a partir de desejos e possibilidades, uma imagem de quem ele pode vir a ser profissionalmente.

Essa busca em direção da identidade profissional é sucedâneo da tarefa básica de toda a adolescência, que é a constituição da identidade pessoal por assim dizer. Em bom Português: descobrir o que ser profissionalmente só é possível pela descoberta de quem se pode ser a partir da própria personalidade. É por isso que os vestibulares são tão emocionalmente significativos: eles não são só provas de conhecimento (ou de uma amostra de conhecimento), mas também um momento potencialmente crítico que toca a subjetividade dos que estão envolvidos numa busca que, no final, resulta ser por si próprio.

O dilema vocacional da adolescência é, assim, parte de um momento crucial no desenvolvimento. Os desafios das provas e suas múltiplas escolhas apenas materializam as dificuldades inerentes às crises dessa etapa. Afirmo isso tendo em vista a própria origem da palavra “crise” – o grego krisis – que quer dizer “escolha” ou o “ato de distinguir”. Ou seja, toda crise é um momento de separar um antes de um depois com algum tipo de definição. É, por isso, um período de perigo e de possibilidades em que alguma mudança será inevitável.

Crescer não é assim mesmo?

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9.11.07

Infelizes no amor


Jorge amava Luísa, que amava Basílio, que não amava ninguém. Esse é o triângulo amoroso de “O primo Basílio”, uma das obras mais famosas e prestigiadas de Eça de Queiroz e que agora recebe uma versão para o cinema pelas mãos do diretor Daniel Filho, numa excelente produção nacional que conta com Débora Fallabela, Fábio Assunção, Glória Pires e Reynaldo Gianecchini.

Nesta versão cinematográfica do grande clássico, a história se passa na São Paulo da década de 1950, e não em Lisboa, no século XIX, como no livro. Há outras alterações contextuais na trama, mas o essencial está lá: Luísa, a jovem burguesa, reencontra uma velha paixão (seu primo Basílio), depois de já estar casada com Jorge; o marido ausenta-se durante alguns meses, período em que Luísa aproveita para se render aos desejos há muito tempo guardados por seu primo, que a procura novamente. Só que o affair é descoberto por Juliana, a empregada de Luísa que suporta sucessivas humilhações patrocinadas pela patroa e que, com as provas da traição em mãos, passa a controlar a vida dela com chantagens.

Limito minha enxugada sinopse até este ponto para não comprometer o prazer do leitor em se surpreender com as reviravoltas do filme.

Como é típico na obra eçaiana, a história de “O primo Basílio” é cheia de acidez no que diz respeito às críticas dirigidas à aristocracia burguesa e aos ideais românticos. Contudo, uma pergunta se sobressai na releitura do clássico nos dias atuais: até onde uma pessoa pode ir por amor?

Vemos três personagens que, amando, constroem sem perceber seus próprios sofrimentos. Luísa ama Basílio ingenuamente, idealizando-o, projetando nele suas fantasias de um casamento feliz, com direito a amor ardente, residência em Paris e festas de estrelas de Hollywood. Nem o fato de já ter sido abandonada por Basílio anteriormente a faz despertar do feitiço que se impõe aos seus olhos quando está com ele; ao contrário: Luísa dedica-se a se enganar. Pensa que é amada tanto quanto o ama.

Enquanto isso, Jorge ama Luísa, mas não uma Luísa por inteiro. Há uma parte da paixão da moça que ele não enxerga, apesar dos claros sinais do interesse dela por um outro homem. Jorge demora para perceber os desejos e as mudanças da mulher, talvez porque eles não mostrem nada daquilo do que ele gostaria de encontrar nela.

Por fim, temos Basílio, que fica por uns tempos com Luísa, mas parece mesmo não amar ninguém. Só parece. Conquistador, seduz as mulheres com promessas e flores, mas não fica com nenhuma pra valer. Ora, nunca estabelecer com um(a) parceiro(a) alguma relação amorosa significativa é expressão de um tipo de imaturidade que apenas reafirma um outro amor, infantil e não superado: o amor pela mãe. A solidão dos que levam a vida à moda "Don Juan" se esconde por trás de um sem-número de conquistas sexuais, afinal, uma vida em busca daquele ser perfeito como a mamãe só pode resultar numa procura interminável mesmo. Basílio é assim: fica com todas para não estar com ninguém.

Luísa, Jorge e Basílio, enfim, são todos infelizes no amor. Cada um a seu modo se recusou a reconhecer que amores verdadeiros implicam numa situação de vulnerabilidade. Quando o amor surge, as possibilidades de felicidade são tão grandes quanto as de sofrimento. É por isso que o jogo do amor é sempre de alto risco. Só que quem tenta burlar suas regras para evitar esses riscos acaba de fora da brincadeira.

Se você deseja ver três formas de um amor fracassar e causar destruição, não perca esta adaptação para o cinema de “O primo Basílio”.

(08/11/2007)

Veja o trailer de "Primo Basílio":

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5.11.07

Morte, luto e saudade


O feriado de amanhã, dia de finados, marca a principal ocasião do ano para visitas e homenagens a parentes e amigos que já partiram. Quem já foi em um cemitério nessa data pôde ter verificado uma cena pitoresca: uma multidão de gente se embrenhando pelas ruas e passagens entre os túmulos e, surpreendentemente, um silêncio respeitoso geral. Mas o que no princípio parece uma quietude solene diante da morte e da ausência se mostra, depois de um olhar mais atento, uma consideração à saudade dos outros.

A verdade é que não há como continuar a ver a vida da mesma forma depois de o manto da morte ter roçado nossa pele alguma vez. Quem já passou pela experiência de perder uma pessoa amada (ou ao menos significativa) sabe bem o que é isso.

É certo que você pode refletir sobre a morte e manter determinadas crenças e convicções a seu respeito, mas isso tudo constitui, até aí, somente um conhecimento e uma elaboração intelectuais sobre ela. Viver a morte, passar pela experiência emocional ligada à perda de um ser querido, daí já é algo totalmente diferente.

Quando perdemos alguém que amamos, enfrentamos um período de vivência do luto, que é a adaptação à perda propriamente dita. A mente tem, assim, um trabalho pela frente: reorganizar internamente todos os sentimentos e afetos ligados à pessoa amada e perdida, assim como ao vínculo que existia com essa pessoa.

O trabalho do luto é árduo. A capacidade de fazer com que os sentimentos sobrevivam à morte é, ao mesmo tempo, uma grande tragédia e uma condição básica para ser humano. Não conseguimos simplesmente desativar os sentimentos e nem desligar os afetos. Pelo contrário: durante um tempo, eles não fazem outra coisa senão reclamar o objeto perdido, daí a tristeza e a prostração típicas da pessoa enlutada.

Parênteses: a má resolução do luto resulta em formas patológicas de tristeza, podendo ser determinante de síndromes depressivas. Mas o luto, por si só, é um processo normal e não pode ser confundido com os quadros de depressões clínicas.

Voltando: se o luto é trabalho, quando é que ele está concluído? A melhor resposta é a elaboração do luto, ou seja, a incorporação daquela perda. Isso demanda tempo e não há um caminho pré-estabelecido; cada um faz o seu. O que é possível para a mente cicatrizar essa dor é a assimilação da mesma, não a sua anulação. É por isso que há dor toda vez que se mexe na ferida deixada por uma perda, mesmo depois de muito tempo transcorrido desde seu acontecimento. Só que agora, com o luto elaborado, essa dor é suportável, e o vínculo que antes existia pode ganhar outro destino, como a saudade, por exemplo. A lembrança, assim, não evoca sofrimento.

Saudade, no fim das contas, é isso mesmo: um misto entre a dor da ausência e a alegria de verificar que aquilo que amávamos no mundo externo continua vivo e preservado no nosso mundo interno. Essa talvez seja a forma mais humana de driblar a morte, e serve como prova de que quem partiu não virou um finado, porque até mesmo o fim, no fim das contas, pode não ser assim tão absoluto.

(01/11/2007)

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