28.9.07

A língua de Luís de Camões


A canção "Língua", de Caetano Veloso, começa assim: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões". A composição, porém, talvez venha a perder uma parte de seu significado em decorrência da reforma ortográfica que pode vir a ser implantada em 2008.

O projeto (estudado desde 1990) tem por objetivo unificar a escrita no Brasil, em Portugal e na África lusófona e, assim, aproximar as culturas dessas populações. A justificativa me causa estranheza, porque as ricas diferenças na língua portuguesa nunca nos impediram de ler os portugueses Fernando Pessoa e José Saramago, e nem os jogadores da seleção lusitana de futebol de compreender o Felipão. De qualquer forma, a língua de Caetano não vai mais roçar a língua de Camões, se esse acordo vingar, porque elas serão, oficialmente, uma só.

Para nós, as mudanças seriam a volta das letras "k", "w" e "y" ao alfabeto oficial (os Washingtons, as Kellys e os Nakamura agradecem) e uma série de novas regras para o uso de alguns sinais. O trema, o hífen, os acentos diferenciais e os acentos em ditongos abertos praticamente desapareceriam.

Resultado: "lingüiça" vira "linguiça", "contra-regra" se torna o esquisito "contrarregra" e "idéia" será "ideia". Eu e meus colegas psicólogos teríamos que nos acostumar a ler sobre personalidade "antissocial", e não anti-social. E imagino qual não seria o vestibulando ou o candidato num concurso público que não se preocuparia em, de uma hora para outra, não saber se o certo é "enjôo" ou "enjoo".

Em Portugal, a maior alteração seria o extermínio do "c" mudo, transformando um "facto" num "fato".

A questão da reforma ortográfica nos lembra o quanto é fácil ver a língua portuguesa apenas como um código cheio de regras. A gramática, ao cumprir com sua necessária função de proteger a língua oficial, ajuda milhares de estudantes a criar uma relação fria com o idioma. A literatura é capaz de salvar essa relação em alguns casos, mas num país com tão poucos leitores, essa tarefa sempre resulta incompleta.

Na verdade, a língua é mais que um sistema de regras e signos convencionados. A linguagem é um dos recursos mais nobres do psiquismo. É só transformando uma experiência em palavras que podemos pensar sobre ela. Posso gritar de dor, mas se eu não transformar esse grito em algo inteligível, não saberei informar o que dói, onde dói e como dói. Também não poderei pensar sobre a dor (o que, no caso de uma dor psicológica, seria um desastre). Ou seja, a linguagem ajuda a mente a operar nas realidades física e psíquica.

Quando você sonha à noite e, de manhã, conta o sonho para algum amigo ou para seu analista, o relato já não traduz diretamente o que foi sonhado. No nível instintivo da mente, de onde os sonhos vêm, não há palavras: apenas imagens e pulsões. Só acordado é que o sujeito faz uma elaboração da vivência onírica, a partir da qual surgem palavras. Decodificar em palavras uma vivência mental é transformá-la em algo pensável: "sonhei com isto".

A mente não liga nem um pouco para as regras da língua. O processo de simbolização subjacente à linguagem independe das normas do código escrito, de modo que a reforma ortográfica não afetaria um só milímetro o jeito de nossa mente "conversar" conosco. Porém, se invertermos o raciocínio, veremos que é a plasticidade de nossa mente no uso da palavra (e de sua imagem fonética) que torna a língua viva, mutante e criativa. Somos nós que a transformamos no que ela é (naturalmente, e não por acordos), de modo que essa reforma soa como um bruto artificialismo estrangeiro.

Identidades se criam na separação, nunca na fusão. Assim, podemos ser, sem problemas, poliglotas na mesma língua e, como canta Caetano, gostar "do Pessoa na pessoa e da rosa no Rosa".

(27/09/2007)

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20.9.07

Mentira indecorosa


Na semana passada, durante os dias que antecederam a votação, no Senado, do processo por quebra de decoro contra Renan Calheiros, acreditei que o presidente da Casa seria cassado. Mesmo com a sessão fechada e as articulações do Planalto para salvar o senador, pensei, os congressistas aproveitariam a chance para mostrar à sociedade que, mesmo na falta de honradez que marca esta e outras legislaturas, haveria ainda por parte do parlamento ao menos a preocupação em fazer parecer que esses valores ainda sobrevivem. Hoje, essa fantasia se mostra típica de um pensamento polianesco.

Freud, provocador que era, dizia que existiriam três profissões impossíveis: educar, governar e psicanalisar. A impossibilidade desses ofícios, a que ele se referia, não dizia respeito ao ato profissional em si, mas à natureza dialógica das mesmas. Nos campos dessas profissões o sujeito e o objeto, assim como a teoria e a prática, se superpõem um a um, o que é paradoxal.

Só que, no Brasil, governar e fazer política - pelo menos com decência - tem se mostrado algo impossível não por questões de ordem da profissão, como Freud propôs, mas pela total falta de pudor de grandiosa parte de nossos “representantes”.

Tomemos como exemplo o placar da votação que salvou Calheiros: 40 votos pela preservação do mandato, seis abstenções e 35 votos acatando a recomendação do Conselho de Ética pela cassação.

Consulta feita pela Folha de São Paulo entre os senadores, na véspera da votação do processo, dava como certa a cassação, com 46 votos. No dia seguinte, 45 senadores ainda diziam ter optado pela cassação.

Com a sessão fechada, ficou fácil ocultar o voto, mas daí a mentir sobre ele já é sinal de canalhice. É só o que se pode dizer sobre um legislador que não assume a responsabilidade pelas suas decisões.

Não há democracia que sobreviva a políticos com esse caráter. O pressuposto de que o Congresso é a casa do povo, posto que o representa e o defende, fica totalmente irreconhecível se o povo não tem como saber que tipo de decisão o seu representante tomou em seu nome. Além disso, é assustadora a absoluta tranqüilidade com que esses senhores mentem sobre o que fizeram ou não tiveram coragem de fazer.

Mentir é um truque sujo. Não porque é feio, igual aprendemos na infância, mas porque estabelece um jogo desigual, em que só um lado acessa a verdade. Esse é o osso de se enfrentar um mentiroso: ele é um profundo conhecedor da verdade, já que vive fugindo dela, tentando deixar o honesto na ignorância.

Quando perdemos a verdade de vista, a coisa nunca é boa. Até para a mente isso é válido. Psicanaliticamente falando, não há melhor alimento para a mente que a verdade. Não a verdade filosófica, com “v” maiúsculo, mas sim a verdade como vínculo com a realidade e o conhecimento. Do mais discreto sofrimento neurótico até as grandes perturbações mentais, todos os transtornos psíquicos têm algum pé na falta de contato com a verdade: nós negamos, iludimos, distorcemos, esquecemos, reprimimos, desviamos, e muitas outras coisas para fugir de verdades essenciais. Possuir saúde mental implica em suportar as verdades penosas que encerramos dentro de nós.

Talvez esse “amor às verdades” que os psicanalistas defendem pudesse trazer alguma salvação para os eleitores traídos. O voto que já foi dado não pode ser corrigido agora, e o mentiroso, no seu jogo de brincar com a verdade, não vai parar por conta própria. Mas a Poliana que existe em cada um, essa sim precisa ser silenciada nas futuras eleições.

(20/09/2007)

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15.9.07

Quem poderia ter matado Taís?



Quem matou Taís? Por algumas semanas, até o final de “Paraíso tropical”, essa pergunta e a ausência de sua resposta garantirão bons índices de audiência para a telenovela de Gilberto Braga.

Taís entra para o seleto grupo dos “personagens-de-novela-assassinados-misteriosamente”, que, vez ou outra, assombram as tramas das ficções televisivas e atiçam a curiosidade dos espectadores. Os precedentes mais ilustres são Salomão Hayala (“O astro”) e Odete Roitman (“Vale tudo”).

Histórias de mistério policial fascinam. Quando diante de qualquer situação vaga e imprecisa (como é a cena de um crime misterioso), nossas fantasias tratam de organizar algum sentido para o contexto apresentado. É dessa forma que criamos várias hipóteses e levantamos suspeitas sobre alguns personagens, no caso da novela. O público é chamado a bancar o detetive, transformando a curiosidade em uma caça ao criminoso.

Essas histórias são claramente inspiradas nos tradicionais romances policiais que desafiavam o leitor a descobrir se ele conhecia de fato os personagens que acompanhava. Assim eram as histórias de Sherlock Holmes e os livros de Agatha Christie. Essas tramas seguiam uma lógica bem amarrada, em que nenhuma cena era à toa, de tal modo que as pistas podiam ser colhidas e organizadas para se encontrar o criminoso. Regra geral, essas pistas eram confrontadas com três aspectos básicos: o motivo, o meio e a oportunidade. Quem, diante das evidências, reunisse os três era o suspeito número um.

Em “Paraíso tropical”, curiosamente, essa lógica não possui aplicação, porque valeria para quase todos os personagens. Aliás, segundo a mídia noticiou recentemente, nem o autor da novela decidiu quem é o assassino.

É justamente essa vagueza, essa longa lista de possíveis assassinos, que confere à trama policial da novela um toque realista (atributo raríssimo numa produção desse tipo). Explico: na vida real, não se chega à descoberta da identidade de um assassino através de fórmulas simples, como a da conjunção dos motivos, meios e oportunidades. A personalidade inclui complexidades que escapam ao entendimento lógico e ao controle racional, de modo que um assassino não nasce apenas pela força das circunstâncias. A subjetividade conta também.

Por exemplo, o ódio e a destrutividade, possíveis “inspirações” de um assassino, são experiências humanas naturais. Qualquer um já os enfrentou dentro de si antes. O fato de as pessoas não saírem se matando não quer dizer que eles não existam; apenas ganharam outro fim, ou outra aparência, como é o esperado.

Há atualmente, no noticiário nacional e internacional, duas histórias que revelam o quanto pode ser tênue essa fronteira entre a lucidez e a desrazão. Uma delas é o caso do promotor Thales Ferri Schoedl, que em 2004 matou um rapaz que teria assediado sua então namorada num passeio em uma praia paulista. O outro caso é o da garota inglesa Madeleine, desaparecida desde maio deste ano, numa viagem de férias a Portugal com sua família. Hoje, sua mãe, Katherine McCann, é oficialmente um dos suspeitos.

Ora, o que traz um promotor de justiça para o banco dos réus e uma mãe para debaixo da lupa dos investigadores que procuram o assassino de sua filha? Certamente não é o fim de uma ingenuidade investigativa, que só existiu nos folhetins, mas a compreensão cada vez maior de que as inflamações de nossa veia assassina podem comprometer qualquer um. Esses casos, assim como o da Taís, mostram que qualquer um pode ser um assassino.

(13/09/2007)

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9.9.07

Você tem sede de que?



No mundo da propaganda, há pouquíssimos exemplos de campanhas que brincam tanto com a inteligência do consumidor quanto as peças publicitárias de cervejas. Senão, vejamos: onde está a “barriguinha de chope” da galera bonita que aparece nas cenas de bares e praias? E no meio da alegria, onde foram parar os que sempre exageram na bebida, transformando-se em chatos ou explodindo em violência? E o que dizer do garoto-propaganda pagodeiro que pede para beber com moderação? Seria, ele mesmo, moderado?

Não há, a priori, algo de errado em fantasias como essas. Não precisa ser bom bebedor para saber que existem poucas donas de bares como a Juliana Paes e que caranguejos não bebem cerveja. É trabalho dos publicitários vender uma imagem positiva de algum produto, ainda que esse produto seja uma droga. Se o consumidor compra essa fantasia, e se ele fará ou não um bom uso do que consome, já é outra história.

Esta é a preocupação de especialistas diante dos números de estudo recentemente divulgado pela Secretaria Estadual da Saúde, segundo o qual, nos últimos três anos, cresceu 78% o número de mulheres que procuraram tratamento para a dependência de álcool, em São Paulo.

Além da ampliação do mercado de cervejas, evidenciada pelas ricas propagandas, a explicação básica para o referido aumento seria a assunção, por parte das mulheres, de uma maior sobrecarga de trabalho e uma vida mais estressante.

Ao que me parece, essas não são explicações suficientes. Isso porque não é de hoje, ou de três anos atrás, a conquista de espaço no mercado de trabalho pelas mulheres. Da mesma maneira, as velhas fórmulas das propagandas de cerveja são as mesmas há décadas. O baixinho da Kaiser, na labuta há muito tempo, confirma isso. Como a droga é um problema também para a área de saúde mental, a interpretação para o problema não pode se restringir a questões sociais.

A palavra “adicto” vem do latim addictum, que quer dizer “designado”, “oferecido”. Seu uso na Roma Antiga era em situações em que o indivíduo virava escravo como forma de pagamento para dívidas que ele não tinha condições de liquidar. Ou seja, o drogadicto é um escravo da droga. Essa metáfora serve bem ao termo porque, assim como a escravidão, qualquer tipo de dependência priva o sujeito de escolhas e desejos.

Na psicanálise, muitos se dedicaram à compreensão do tema. Há um relativo consenso quanto ao fato de o abuso de drogas ser a manifestação de uma severa intolerância a esperas, uma avidez sem controle.

Essa avidez, como traço da personalidade, seria reflexo de uma conflitiva arcaica, inconsciente, que remete aos períodos iniciais do desenvolvimento, quando os alimentos que o bebê consumia lhes eram dados pela mãe em uma situação de bem-estar e alívio dos desconfortos. O drogadicto procuraria na droga um retorno a esse paraíso perdido das satisfações totais e rápidas.

É por isso que o dependente de drogas se coloca numa situação fechada, em que ele e a droga se bastam; os outros não importam quando tudo de que ele precisa é a fonte de sua satisfação. Assim, para o alcoólatra, basta uma garrafa de bebida para se satisfazer; para o usuário de cocaína, algumas carreirinhas são suficientes; para o chocólatra, a exaltação vem numa barrinha qualquer etc.

A drogadição é um problema com repercussões sociais, mas com causas também de ordem psicológica. Por isso, toda análise das estatísticas e dos planos de ação envolvendo a questão podem ser mais bem elaborados levando-se em conta as tramas do psiquismo.

(06/09/2007)

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