A língua de Luís de Camões

A canção "Língua", de Caetano Veloso, começa assim: "Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões". A composição, porém, talvez venha a perder uma parte de seu significado em decorrência da reforma ortográfica que pode vir a ser implantada em 2008.
O projeto (estudado desde 1990) tem por objetivo unificar a escrita no Brasil, em Portugal e na África lusófona e, assim, aproximar as culturas dessas populações. A justificativa me causa estranheza, porque as ricas diferenças na língua portuguesa nunca nos impediram de ler os portugueses Fernando Pessoa e José Saramago, e nem os jogadores da seleção lusitana de futebol de compreender o Felipão. De qualquer forma, a língua de Caetano não vai mais roçar a língua de Camões, se esse acordo vingar, porque elas serão, oficialmente, uma só.
Para nós, as mudanças seriam a volta das letras "k", "w" e "y" ao alfabeto oficial (os Washingtons, as Kellys e os Nakamura agradecem) e uma série de novas regras para o uso de alguns sinais. O trema, o hífen, os acentos diferenciais e os acentos em ditongos abertos praticamente desapareceriam.
Resultado: "lingüiça" vira "linguiça", "contra-regra" se torna o esquisito "contrarregra" e "idéia" será "ideia". Eu e meus colegas psicólogos teríamos que nos acostumar a ler sobre personalidade "antissocial", e não anti-social. E imagino qual não seria o vestibulando ou o candidato num concurso público que não se preocuparia em, de uma hora para outra, não saber se o certo é "enjôo" ou "enjoo".
Em Portugal, a maior alteração seria o extermínio do "c" mudo, transformando um "facto" num "fato".
A questão da reforma ortográfica nos lembra o quanto é fácil ver a língua portuguesa apenas como um código cheio de regras. A gramática, ao cumprir com sua necessária função de proteger a língua oficial, ajuda milhares de estudantes a criar uma relação fria com o idioma. A literatura é capaz de salvar essa relação em alguns casos, mas num país com tão poucos leitores, essa tarefa sempre resulta incompleta.
Na verdade, a língua é mais que um sistema de regras e signos convencionados. A linguagem é um dos recursos mais nobres do psiquismo. É só transformando uma experiência em palavras que podemos pensar sobre ela. Posso gritar de dor, mas se eu não transformar esse grito em algo inteligível, não saberei informar o que dói, onde dói e como dói. Também não poderei pensar sobre a dor (o que, no caso de uma dor psicológica, seria um desastre). Ou seja, a linguagem ajuda a mente a operar nas realidades física e psíquica.
Quando você sonha à noite e, de manhã, conta o sonho para algum amigo ou para seu analista, o relato já não traduz diretamente o que foi sonhado. No nível instintivo da mente, de onde os sonhos vêm, não há palavras: apenas imagens e pulsões. Só acordado é que o sujeito faz uma elaboração da vivência onírica, a partir da qual surgem palavras. Decodificar em palavras uma vivência mental é transformá-la em algo pensável: "sonhei com isto".
A mente não liga nem um pouco para as regras da língua. O processo de simbolização subjacente à linguagem independe das normas do código escrito, de modo que a reforma ortográfica não afetaria um só milímetro o jeito de nossa mente "conversar" conosco. Porém, se invertermos o raciocínio, veremos que é a plasticidade de nossa mente no uso da palavra (e de sua imagem fonética) que torna a língua viva, mutante e criativa. Somos nós que a transformamos no que ela é (naturalmente, e não por acordos), de modo que essa reforma soa como um bruto artificialismo estrangeiro.
Identidades se criam na separação, nunca na fusão. Assim, podemos ser, sem problemas, poliglotas na mesma língua e, como canta Caetano, gostar "do Pessoa na pessoa e da rosa no Rosa".




