25.5.07

As novas maravilhas do mundo


O mundo vota. Não, esta não é uma verdade do ponto de vista político. É que a Fundação New 7 Wonders pôs em disputa 21 obras arquitetônicas mundialmente conhecidas para comporem as 7 novas maravilhas do mundo, a serem escolhidas através de votos vindos do mundo todo pela Internet. Dentre os 21 concorrentes estão a Muralha da China, a Estátua da Liberdade, o Taj Mahal, as ruínas de Machu Pichu, o Opera House de Sydney e a Torre Eiffel. O Brasil tem seu representante: o Cristo Redentor.

As 7 novas maravilhas do mundo ambicionam suceder as tradicionais do mundo antigo, a saber: o Mausoléu de Halicarnasso, as Pirâmides de Gizé, o Farol de Alexandria, o Colosso de Rodes, os Jardins Suspensos da Babilônia, a Estátua de Zeus em Olímpia, e o Templo de Ártemis.

Todas elas, assim como os candidatos a novas maravilhas do mundo, aparentemente possuem um único atributo em comum: são obras que se notabilizam pela grandiosidade. Esse parece ter sido um critério importante na lista de finalistas da fundação, que avaliou, ao longo de oito anos, mais de 200 concorrentes.

Ora, a palavra “maravilha” vem do latim mirabilis, que designa algo admirável ou extraordinário. O termo, por si só, não se relaciona com a questão das dimensões de um objeto, mas pelo seu efeito singular em quem o contempla. Assim, poderiam ser incluídas no rol das maravilhas a Gioconda de Da Vinci, a obra de Shakespeare ou a voz da Elis Regina. Mas, enfim, priorizou-se o que é eterno pela sua grandeza concreta. E coisas desse tipo o mundo tem aos montes, já que não economizar em grandes monumentos sempre foi regra entre os diversos povos ao redor do mundo.

Isso é facilmente compreendido quando pensamos no mundo antigo, pois o domínio da engenharia e da arquitetura servia para equiparar o homem aos deuses, pelas grandes e complexas construções que não deixavam dúvidas quanto ao poder de imperadores, reis, faraós etc.

Mas com a modernidade o poder já não é mais expresso e invocado através de belas formas e construções magnânimas, mas fundamentalmente pelo capital e pelo potencial bélico das nações e seus líderes. Então qual seria, hoje, o sentido de atualizar as maravilhas do mundo com esta votação?

Os organizadores da iniciativa afirmam que a novidade servirá para “unir o mundo”, já que mexeria com o orgulho de qualquer habitante do planeta o ato de glorificar com o cargo de “maravilha do mundo” os patrimônios culturais globais.

Perguntas: se as maravilhas possuem essa representatividade e esse efeito unificador, como se sentiriam os cidadãos que não crêem em Cristo se nosso Redentor for eleito? E será que as nações que têm antipatia pelos EUA reagiriam bem a uma eventual vitória da Estátua da Liberdade? E se os votos são enviados pela Internet, o que dizer da África, que além de ser o continente com menos candidatos (sintomático, não?), possui o maior índice de exclusão digital do mundo? E se a idéia é unificar, por que é tão difícil pensar no nosso patrimônio natural, este sim mais universal e ameaçado que o cultural?

Parece que o homem moderno se sente carente quanto à possibilidade de se maravilhar e orgulhar por seus feitos e agora tenta resgatar uma tradição antiga para se lembrar da grandiosidade de que é capaz, ou mesmo de que é capaz de fazer maravilhas. Em momentos de crise, é natural que o homem regrida.

Só que eleger as maravilhas que o homem fez com concreto, pedras e tijolos faz injustiça às verdadeiras e reais capacidades humanas. Eu voto na voz da Elis.

(24/05/2007)

18.5.07

De perto, quem é normal?


Amanhã será o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. O 18 de maio relembra a data da primeira manifestação pública dos profissionais de saúde mental, no Brasil, em favor do fechamento dos manicômios. Isso foi há 20 anos.

A luta antimanicomial é a principal bandeira de um movimento político, social e ideológico, nascido na Europa e assimilado pelo Brasil há algumas décadas, chamado de Reforma Psiquiátrica. Através dele, vários profissionais de saúde mental, intelectuais, pacientes com transtornos mentais e seus familiares passaram a questionar o modelo asilar de internação, em que os “loucos” eram isolados da sociedade em manicômios. Muitas vezes, esses órgãos nem possuíam um projeto terapêutico e apenas tentavam trancafiar a loucura, o que só a agravava. Ou seja, nos manicômios, os doentes mentais não eram tratados, e sim excluídos.

Hoje, a rede oficial de assistência em saúde mental, pelo menos no que tange a normas, técnicas e instrumentos éticos, conta com parâmetros para fazer prevenção e promover a saúde mental sem retirar o paciente da sociedade. Assim, há a preferência por serviços comunitários e de reabilitação psicossocial.

Mas, e daí? O que você tem a ver com isso? Muita coisa.

O filósofo francês Michel Foucault questionava nossa forma de ver a loucura. Segundo ele, cada cultura forma uma imagem da doença mental tendo em vista o que a sociedade reprime ou exalta. Assim, a doença só tem valor de doença a partir do aval da sociedade.

Foucault parece ter razão. Tudo o que assusta a sociedade de alguma forma tende a ser enquadrado como uma conduta desviante, e daí rapidamente passa a ser entendido como doença. Os transtornos mentais são exemplo disso.

A sociedade reage àquilo que não compreende da mesma forma que qualquer pessoa diante de alguma verdade inconveniente: negando ou reprimindo. Enclausurar um doente mental atende, assim, mais a uma resistência ao diferente, e ao medo da loucura, do que às necessidades reais do paciente. Por conta disso, durante séculos, o mundo preferiu trancar o doente mental a tratá-lo.

Mas, se há tanta dificuldade com a loucura, como fica o que é normal, afinal? Acredito que a psicanálise contribuiu para a luta antimanicomial descartando a separação drástica entre normalidade e doença mental, na medida em que identifica os mesmos processos da mente neurótica ou psicótica também em qualquer pessoa menos perturbada. Quem leu o conto “O Alienista”, de Machado de Assis, sabe do que falo.

Pense, por exemplo, em juízos falsos da realidade, como o fornecido pela astrologia. “Fulano é assim porque tem ascendente Capricórnio”. E o que dizer do sujeito que é capaz de explodir no meio da rua por causa de uma mera fechada que levou no trânsito? Ninguém é visto como louco por conta de demonstrações como essas, embora sejam situações em que há um certo desapego à realidade. Ou seja, de alguma maneira, todos nós deliramos; mas como o fazemos coletivamente, sentimo-nos normais.

Pois é. A psicanálise mostra que os caminhos da razão e da desrazão, da saúde e do transtorno mental, são muito entrecortados em nossa mente. De perto e no fundo, ninguém é normal. O melhor a que podemos chegar é, então, a consciência de nossa própria insanidade. É aprisionando-a que ficamos loucos.

(17/05/2007)

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10.5.07

Batalhas internas


Fiz parte da multidão que foi aos cinemas no primeiro fim-de-semana do filme “Homem-Aranha 3”, lançado recentemente. Assim como os dois primeiros filmes com o super herói, este também é dirigido por Sam Raimi e conta com o mesmo elenco.

Sempre gostei do personagem e de suas histórias, até pelo fato de suas primeiras incursões nos desenhos animados e nos videogames terem feito parte de minha infância. Mas com esse novo filme, tive uma motivação extra para ver o aracnídeo em ação: o drama do personagem, desta vez, é um conflito subjetivo. A campanha de publicidade do filme até deu a dica, com os dizeres: “desta vez, a batalha será interna”.

Não se deixe enganar pela aparência pueril da história. As tramas com super heróis já deixaram a inocência do “bonzinho versus mauzinho” de lado há muito tempo. Os mutantes dos X-Men, que enfrentam preconceito e incompreensão por causa de seus poderes, e o novo Batman, que encontra nos seus traumas as complexidades de sua origem como justiceiro, são exemplos da dimensão psicológica e da abertura para questões mais sérias na construção dos personagens. O Homem-Aranha também tem sua cota de angústias, medos e complicações.

No primeiro filme descobrimos a origem do herói, quando o jovem Peter Parker tem que decidir como usar seus poderes e lidar com as responsabilidades que eles trazem. Nesse primeiro episódio, o conflito está entre continuar na adolescência ou desenvolver suas capacidades, amadurecendo. Em “Homem-Aranha 2”, o personagem paga pelo preço de suas escolhas: levando uma vida dupla, dividindo-se entre sua vida normal e seus desafios como protetor de Nova York, quase perde a mulher dos seus sonhos. Nesse momento, seu conflito é ser Peter Parker ou Homem-Aranha.

Agora, em “Homem-Aranha 3”, o herói descobre o lado negro de sua força. Enfrentando dificuldades em sua vida pessoal e entregando-se a sentimentos e desejos perigosos, o personagem desenvolve seu lado sombrio, torna-se violento, insensível e desequilibrado. Divide-se, agora, entre ser bom ou mau.

É importante verificar que um conflito semelhante ocorre com os três inimigos que o enfrentam nesse episódio. Quem for conferir o filme, verá que, cada um a seu modo, passa a agir de forma má por uma razão própria, que nada tem a ver com uma “maldade nata”. Nenhum deles é feito só de maldade. Da mesma forma que o Aranha descobre sua versão obscura, os vilões também possuem aspectos bons.

Para mim, o maior mérito dessa nova produção foi se livrar de qualquer maniqueísmo. O bem e o mal andam juntos. Isso reforça a qualidade dos personagens e proporciona maior identificação por parte do público.

Não existe bondade absoluta, nem maldade absoluta. Dividir o mundo em lados “bom” e “mau” é uma visão incompleta. Segundo a psicanálise, essa cisão ocorre quando alguma angústia muito grande precisa ser evitada. Isso é fácil de ver: se estou aflito, quero acreditar que quem me protege é totalmente bom; ao mesmo tempo, preciso fugir do que me aflige, que será visto como algo exclusivamente mau. Da mesma forma, todos os meus aspectos negativos podem ser colocados nos ombros desse objeto mau, como se viessem me perturbar de fora.

Contudo, não é preciso ir muito longe para reconhecer que a mente, para amadurecer, precisa incorporar a realidade de que “bom” e “mau” não são qualidades excludentes.

Todos nós oscilamos, assim, entre um nobre heroísmo e uma baixa rabugice, a cada momento, todos os dias. O que nos define não é uma predisposição para ser humano ou monstro, mocinho ou bandido, mas as escolhas que fazemos e o modo como enfrentamos nossos próprios destinos.

(10/05/2007)
O trailer de "Homem-Aranha 3" pode ser visto aqui:

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3.5.07

Perto do coração de Clarice Lispector


Já faz algumas semanas que escrevi sobre os encantamentos e reflexões proporcionados pelo Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, na Estação da Luz. À época em que o visitei, o primeiro andar, onde fica o espaço reservado para as exposições temporárias, estava fechado. A mostra sobre Guimarães Rosa estava encerrada. Perdi.

Nesta semana, no entanto, retornei ao Museu para conferir a exposição “Clarice Lispector – A Hora da Estrela”, que estreou há poucos dias. A mostra é uma belíssima homenagem à escritora, e marca os 30 anos desde sua morte.

O visitante toma contato com os originais de algumas de suas obras, documentos, correspondências (algumas delas com outras estrelas, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo, etc.), fotos diversas e edições em outras línguas de seus livros. Vídeos e outros recursos audiovisuais completam o material que nos apresenta um possível retrato da escritora.

Tudo é apresentado de forma interativa e instigante, seguindo a proposta do Museu, o que torna a visita uma verdadeira expedição ao mundo clariceano. Isso fica claro pela dispersão de frases e trechos de sua obra que preenchem as paredes e os corredores, além da própria ambientação, que não deixa dúvidas quanto ao clima de exploração e descobrimento.

Dos poucos livros de Clarice Lispector que li, e do que sei de seus trabalhos, é possível notar que suas histórias e seus dizeres são plenos de um saber psicológico vivaz, o que só é encontrado em autores de sua grandeza. É tão sofisticada nesse atributo que algumas de suas frases serviriam até para explicar e resumir claramente complicadíssimos conceitos psicanalíticos, próprios do ofício da exploração das malhas do inconsciente. Isso porque o olhar dessa escritora era receptivo para o desconhecido (em suas palavras, “entender é sempre limitado”), o que proporciona ao leitor uma espécie de descoberta de um mundo sempre novo: o de si mesmo.

Combinando o lirismo de seu estilo a uma surpreendente simplicidade no uso das palavras, suas personagens vivem situações que, narradas por ela, levam o leitor ao seu próprio encontro. Ler Clarice é, nesse sentido, como ler a si mesmo. A certa altura, tem-se a impressão de que concordamos com tudo o que ela disse e escreveu, pela habilidade com que essa escritora traduz nosso misterioso sentimento de estar-no-mundo. É assim com todos os temas que ela explora. Dessa forma, Clarice nos impressiona por nos dizer claramente aquilo que em nós permaneceria indizível.

Acho que Clarice intuía, de alguma forma, essa sua capacidade de alfabetizar a inquietação da subjetividade quando afirma se considerar “bastante maternal”, em um dos vídeos da exposição. Legando ao seu público as palavras que tão bem definem as vicissitudes da existência, ela cumpre com a função da mãe que apresenta a seu filho o mundo das emoções em que este viverá, dando um nome para cada uma delas.

Não se trata de uma compreensão dos sentimentos, mas sim da apreensão dos mesmos para a vida. Como diz a própria Clarice, “viver ultrapassa qualquer entendimento”.

“Clarice Lispector – A Hora da Estrela” fica no Museu da Língua Portuguesa até dia 2 de setembro. É, desde já, um compromisso imperdível.

(03/05/2007)

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