27.4.07

Explosão assassina


A chacina ocorrida na semana passada nos EUA, protagonizada pelo estudante sul-coreano Cho Seung-hui, que culminou na morte de 32 pessoas, chocou o planeta. A intenção do atirador parece ter sido justamente essa, até porque seu plano incluía não apenas a matança, mas também aquele perturbador “testamento” com vídeos, fotos e declarações cheias ódio e acusações maníacas. Para quem sempre foi retraído e se esquivava do olhar dos outros, ele fez o mundo notá-lo de uma forma arrebatadora.

Crimes como os de Virginia Tech têm se tornado cada vez mais freqüentes. E isso tem pouco a ver com a cultura de bang-bang dos americanos. Tanto é que nem precisamos ir muito longe para encontrarmos crimes parecidos. O leitor deve se lembrar do que ocorreu em 2003, no município de Taiúva, próximo a Ribeirão Preto, quando um jovem se dirigiu até a escola onde havia estudado, atirou em sete pessoas e depois se matou. Quatro anos antes, num shopping center de São Paulo, um outro rapaz entrou numa sessão de cinema e, atirando a esmo, matou três pessoas.

Toda vez em que casos como esses ocorrem, as pessoas se desesperam em busca das causas. Não tem como ser diferente, já que além de querermos evitar novos ataques do tipo, nós nos aliviamos quando aplacamos a angústia diante de monstruosidades como essas se uma explicação é encontrada.

Daí surgem muitas hipóteses: a perseguição a ideais culturais e sociais, o fácil acesso a armas de fogo, a banalização da violência através da mídia, problemas de ordem cerebral, uso de drogas etc. Repare que todos esses aspectos são válidos e úteis na hora de cercar o problema, mas mesmo todos eles juntos deixam um ponto em aberto: a mente.

Um exemplo. Já é quase de praxe, em crimes envolvendo jovens de classe média, a suspeita de uma influência maléfica dos videogames. Jogos de tiros, lutas sanguinárias, objetivos pouco louváveis (roubar carros ou tirar rachas na rua), personagens monstruosos, ação frenética: todos esses temas são comuns no mundo dos games, e serviriam para eliciar um comportamento agressivo e violento do adolescente e na criança que se diverte com eles.

Na verdade, quem se dispõe a ver os fatos com racionalidade, verá que é a criança e o adolescente que incorporam a realidade do videogame ao seu modo; eles não são hipnotizados pelo aparelho. Trata-se de um instrumento de fantasia, e nesse sentido equivale ao faz-de-conta de jogos e brincadeiras. Mas o que esse exemplo mostra é que, no final das contas, fica mais fácil para dormir à noite se acreditarmos que a culpa por um crime inexplicável recai em um objeto fora do psiquismo (a TV, o videogame etc.). Mais difícil é encarar a verdade de que nossas mentes podem vir a ser o berço de uma explosão assassina.

Para uma análise total e realista de tragédias como a da semana passada, a subjetividade e as vicissitudes da mente não podem ser esquecidas. Desconfio que a preferência para olhar e interpretar esses desvios pelo lado de fora seja conseqüência da velha resistência do homem em olhar para o mundo de dentro, porque, em casos como o de Cho Seung-hui, isso nos faria descobrir não só o que a civilização ajuda a produzir, como também as coisas loucas que a mente humana é capaz de fazer.

(26/04/2007)

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21.4.07

Amor sabor chocolate


Na última segunda-feira, foi publicada uma pesquisa coordenada por cientistas britânicos do laboratório Mind Lab (“laboratório da mente”, mantido pela indústria alimentícia inglesa) cuja conclusão é a de que o chocolate produz mais efeitos no cérebro e no corpo do que o beijo.

Os participantes do experimento tiveram as reações do cérebro e do coração monitoradas em dois momentos: enquanto um pedaço de chocolate meio-amargo derretia na boca e enquanto beijavam alguém. Comparando os dados obtidos nas duas situações, verificou-se que as reações ao consumo do chocolate eram mais fortes e também mais duradouras. A interpretação dada aos resultados é a de que o chocolate gera mais prazer que o beijo.

Será que há quem concorde? Medir prazer não deve ser tarefa simples. As reações neurofisiológicas atendem a critérios científicos de mensuração, mas a experiência de prazer entrelaça essas reações a toda uma constelação de fantasias, desejos e contingências na subjetividade de uma pessoa, que não tem como ser medida. De qualquer forma, achei a pesquisa e seu resultado bastante intrigantes, sobretudo pela relação alimento-afeto que está no cerne da discussão.

A alimentação, no desenvolvimento do psiquismo e da personalidade, tem importância fundamental, extrapolando os fatores nutricionais. Isso porque nossas primeiras experiências emocionais se dão nos momentos iniciais da vida com aquela pessoa que, numa visão psicanalítica, constitui a primeira grande paixão de uma pessoa: a mãe. Na amamentação, o bebê não ganha só leite, mas também o olhar da mãe e tudo o que isso representa, como proteção, afeto, conforto etc. Dessa relação nossa vida emocional evolui e se amplia, mas deixa o registro primitivo de que comida está associada a vínculos (aviso: é por isso que a maioria dos transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, carrega algum conflito emocional).

Repare: bons encontros com amigos sempre são acompanhados de petiscos ou bebidas, passeios românticos sempre incluem um jantar, muitos negócios são fechados em almoços, os familiares se reúnem em torno da mesa para comer e conversar, e assim por diante.

Talvez isso explique por que a indústria de alimentos foi se interessar tanto pela relação comida-afeto a ponto de financiar um laboratório para gerar pesquisas como esta, sobre o chocolate e o beijo. Eles parecem saber que não se ganham consumidores só pela boca, mas também pelo coração. Ou seja, descobriram que revestindo seus produtos com a fantasia de felicidade, e com o aval de pesquisas científicas, eles podem vender mais guloseimas.

Aqui vale uma recomendação. O documentário “Super size me – a dieta do palhaço”, do diretor Morgan Spurlock, é revelador quanto a essas idéias. No filme, alguns especialistas consultados alertam para a verdadeira intenção por trás das promoções de sanduíches com brinquedos nas redes de fast food. A idéia seria justamente a de associar um momento de alegria e prazer com a família e um “presente” à comida daquele restaurante, transformando as crianças fascinadas pelos brinquedinhos em futuros consumidores.

Vender a idéia de que um chocolate é mais prazeroso que um beijo parece um mau uso da relação comida-afeto por parte dos pesquisadores e da indústria de alimentos. Sugerir que um chocolate (um estimulante) é mais gostoso que um beijo (uma demonstração de sentimento) é quase igual à promessa, na qual tantos jovens caem, de que o paraíso perdido das fortes emoções se encontra em algo a ser consumido. Uma droga, por exemplo.

(19/04/2007)

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13.4.07

Inculta, bela e viva


Neste feriado de Páscoa, tive o prazer de conhecer o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, na Estação da Luz. Muito mais do que um simples passeio, ou uma atividade cultural e informativa, a visita resultou, para mim, numa experiência profundamente reflexiva e instigadora.

Ao longo de mais de 4.000 m² de exposição, com telões, vídeos, apresentações, textos e terminais de consulta, é possível aprender sobre a origem da língua portuguesa e suas transformações ao longo dos séculos (desde o latim na Antiguidade até as influências da informática nos nossos tempos) e pelos continentes (desde a Europa até as confluências com tribos indígenas). História, poesia, música e cultura recheiam o Museu de riquezas, cores e sons imprescindíveis para mostrar o que é que nossa língua tem. A abordagem da exposição é extremamente envolvente e interativa, e, por isso mesmo, bastante diferente dos museus tradicionais.

O Museu da Língua Portuguesa consegue estabelecer uma relação com o público de uma maneira ímpar, peculiar, por uma razão simples: o objeto da exposição, que é nossa língua-mãe, não está só nos corredores do museu, mas sobretudo nos visitantes que lá estão. É por isso que esse museu oferece ao visitante um mergulho dentro de si.

A linguagem é um tema bastante caro à psicanálise. Ela é uma das mais importantes atividades superiores da mente, um passo fundamental no desenvolvimento normal de uma pessoa. O júbilo que os pais sentem ao ouvir a primeira palavra de seu filho não deixa dúvidas quanto a isso. É que quando a palavra surge, ela atesta a capacidade do sujeito de simbolizar, que é uma conquista importantíssima.

Como assim? Quando um nome é dado para alguma coisa (quando se usa uma palavra para se referir a algo), essa coisa passa a existir não só no plano real, como também no simbólico. Ou seja, passa a ser um elemento que transita por nossa subjetividade e, assim, pode ganhar diversos usos e significados.

Pense, por exemplo, na palavra “saudade”, que só existe no Português. O “sentimento melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença de alguém ou de algo” pode surgir a qualquer pessoa do mundo, mas, ao que parece, só no Português há um nome para esse sentimento: saudade. A palavra faz um registro que identifica e significa algo que pode existir dentro de nós como símbolo. É a partir de nossa habilidade de simbolizar que podemos abstrair pensamentos, fazer generalizações, acessar e expressar nossa interioridade. Trocando em miúdos: se uma coisa vira uma palavra, ela pode mais facilmente ser pensada e representada.

É por isso que ter contato com nossa língua e refletir sobre sua origem e evolução permite percebê-la como uma entidade viva que não só viabiliza a comunicação entre as pessoas como também representa a própria matriz de nossas vivências. Afinal, a língua não serve só para ler, escrever ou falar. Você pensa em Português, sente em Português, emociona-se em Português, sofre em Português, age em Português, existe em Português.

Por essas e outras, fico com a certeza de que visitar o Museu da Língua Portuguesa é um compromisso que cabe a todos os brasileiros. Simplesmente, não há palavras para descrevê-lo.

(12/04/2007)

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5.4.07

Mitos e significados


Responda rápido: é possível que alguém morra com o impacto gerado pela queda de uma moeda iniciada no alto de um arranha-céu? Você acha que é possível enganar o radar de velocidade no trânsito usando papel alumínio nas calotas do carro? E se você imitar Indiana Jones e pular de um avião em pleno vôo usando um bote salva-vidas como pára-quedas, será que conseguiria uma aterrissagem segura? Fazer xixi numa cerca elétrica pode matar alguém eletrocutado? E as pirâmides, como as do Egito, são capazes de preservar substâncias orgânicas em seu interior?

Essas perguntas são baseadas em mitos e lendas urbanas que, como muitas outras do tipo, são respondidas e exploradas no programa de TV Mythbusters – Os caçadores de mitos, no ar aqui no Brasil pelo Discovery Channel. A série, que está começando sua quinta temporada, é estrelada por Adam Savage e Jamie Hyneman, que trabalham com efeitos especiais para as indústrias de cinema e publicidade nos EUA. No programa, eles reproduzem as situações descritas por cada mito e testam sua validade ou, ao menos, sua verossimilhança. A maioria dos mitos se mostra sem fundamento e, por isso, são “detonados” pelos testes. Além de ser um programa divertido e instrutivo (dentro de alguma "ciência do cotidiano"), Mythbusters é um representante da forma como o homem moderno organiza e utiliza seus conhecimentos.

Os mitos antigos em geral são estruturas que geram sentido. Exemplos: o mito de Ícaro nos mostra que o deslumbramento por alguma virtude pode causar a queda da pessoa, enquanto o mito de Narciso nos ensina que o amor absoluto dirigido a si mesmo faz o sujeito se perder no seu próprio eu. Já o mito de Édipo nos adverte sobre as complicadas relações de amor e ódio que o indivíduo tem com seus pais, e o mito de Sísifo, por sua vez, é o próprio emblema do trabalho infrutífero, e assim por diante. A mitologia representa, assim, uma sabedoria que vem do passado e que, por nos tocar de alguma maneira, não caiu no esquecimento e se tornou universal.

Os mitos modernos têm a mesma forma e função, mas são poucos os que resistem ao tempo. O leitor deve se lembrar do “bug do milênio”, segundo o qual todos os computadores teriam pane no fim de 1999. Outro exemplo famoso é a história dos "gatos-bonsai", supostamente criados dentro de jarros de vidro, imóveis, para servirem de "enfeite" para pessoas de gosto duvidoso. Muitos mitos assim são veiculados por e-mail no mundo todo, todo dia. Por que há tantos assim?

O homem é um ser que constantemente tenta encontrar significados no mundo. Pode reparar: não nos contentamos quando algo fica sem explicação, assim como nenhum “porque sim” serve como resposta. Tudo deve ter um sentido, uma explicação.

Tanto é assim que na clínica psicanalítica o sujeito se põe numa reavaliação do seu passado para achar a causa de seu sofrimento atual, entender o que seu sintoma significa. Um adulto pode ficar pasmo, por exemplo, ao descobrir que é obsessivamente perfeccionista porque seus pais não toleravam notas baixas na prova quando era criança. “Freud explica”, é o que dizem.

Na antiguidade, as explicações vinham de poderes absolutos, como deuses, magia ou misticismo, que hoje não são as referências mais utilizadas para se explicar as coisas ou lhes atribuir significados. O pensamento moderno adotou a razão como via régia para se conhecer o mundo. Hoje, se você tem uma gastrite, provavelmente você vai tentar lembrar o que comeu no almoço em vez de pensar que isso é um castigo dos Céus.

Mas como a razão não tem abrangência absoluta, há muita coisa que fica sem explicação, nas margens do mistério e do desconhecido. Por isso o mundo é um terreno fértil para os mitos que nos falam de situações estranhas e fora do comum. Como a ciência moderna nos revelou que não é tudo que pode ser explicado por uma ordem superior, ficamos órfãos da idéia de sermos parte de um todo harmonioso que dá sentido a tudo. Há coisas que ficam sem explicação, e daí completamos a lacuna fofocando por aí histórias incríveis para crer e fazer crer que o mundo é um lugar mais variado e interessante, e com significado.

(05/04/2007)

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