Explosão assassina

Crimes como os de Virginia Tech têm se tornado cada vez mais freqüentes. E isso tem pouco a ver com a cultura de bang-bang dos americanos. Tanto é que nem precisamos ir muito longe para encontrarmos crimes parecidos. O leitor deve se lembrar do que ocorreu em 2003, no município de Taiúva, próximo a Ribeirão Preto, quando um jovem se dirigiu até a escola onde havia estudado, atirou em sete pessoas e depois se matou. Quatro anos antes, num shopping center de São Paulo, um outro rapaz entrou numa sessão de cinema e, atirando a esmo, matou três pessoas.
Toda vez em que casos como esses ocorrem, as pessoas se desesperam em busca das causas. Não tem como ser diferente, já que além de querermos evitar novos ataques do tipo, nós nos aliviamos quando aplacamos a angústia diante de monstruosidades como essas se uma explicação é encontrada.
Daí surgem muitas hipóteses: a perseguição a ideais culturais e sociais, o fácil acesso a armas de fogo, a banalização da violência através da mídia, problemas de ordem cerebral, uso de drogas etc. Repare que todos esses aspectos são válidos e úteis na hora de cercar o problema, mas mesmo todos eles juntos deixam um ponto em aberto: a mente.
Um exemplo. Já é quase de praxe, em crimes envolvendo jovens de classe média, a suspeita de uma influência maléfica dos videogames. Jogos de tiros, lutas sanguinárias, objetivos pouco louváveis (roubar carros ou tirar rachas na rua), personagens monstruosos, ação frenética: todos esses temas são comuns no mundo dos games, e serviriam para eliciar um comportamento agressivo e violento do adolescente e na criança que se diverte com eles.
Na verdade, quem se dispõe a ver os fatos com racionalidade, verá que é a criança e o adolescente que incorporam a realidade do videogame ao seu modo; eles não são hipnotizados pelo aparelho. Trata-se de um instrumento de fantasia, e nesse sentido equivale ao faz-de-conta de jogos e brincadeiras. Mas o que esse exemplo mostra é que, no final das contas, fica mais fácil para dormir à noite se acreditarmos que a culpa por um crime inexplicável recai em um objeto fora do psiquismo (a TV, o videogame etc.). Mais difícil é encarar a verdade de que nossas mentes podem vir a ser o berço de uma explosão assassina.
Para uma análise total e realista de tragédias como a da semana passada, a subjetividade e as vicissitudes da mente não podem ser esquecidas. Desconfio que a preferência para olhar e interpretar esses desvios pelo lado de fora seja conseqüência da velha resistência do homem em olhar para o mundo de dentro, porque, em casos como o de Cho Seung-hui, isso nos faria descobrir não só o que a civilização ajuda a produzir, como também as coisas loucas que a mente humana é capaz de fazer.
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