Casamento, de novo

Coincidência ou não, estive em Americana no último final de semana como convidado para a cerimônia de casamento de uma amiga. Foi uma experiência muito bonita e emocionante.
Gosto das simbologias deste acontecimento: os convidados distribuídos pela igreja, marcando a presença de todos os que acompanharam a trajetória do casal, e a união de duas famílias; as alianças demarcando uma identidade (“entidade idem”, igual) de destinos; os presentes dos convidados, que ajudam a formar o lar do casal; a oração com a mão estendida para os noivos, numa comunhão em que todos desejam felicidades a eles etc.
O momento de que mais gostei, no entanto, foi aquele com a participação dos músicos: um flautista, um violinista, um tecladista e um coral maravilhosos. Fiquei arrependido de não ter pego o cartão de visitas deles. No início da cerimônia, eles apresentaram três canções que pareciam narrar uma história e, juntas, constituíam uma sintaxe própria: “Vivo por ela” (versão de uma música muito famosa na voz de Andrea Bocelli) na chegada do noivo, depois vieram “Ode à alegria” (adaptação da nona sinfonia de Beethoven) na entrada dos padrinhos e, antes de a noiva adentrar a igreja, “She”, popularizada por Elvis Costello.
A música tem um poder encantador, por vezes hipnótico. Apesar de a letra transmitir as idéias, é a melodia que nos embala, talvez por ser a parte da canção que não tem palavras. Freud nos mostrou que existem sentimentos muito fortes e profundos que ficam registrados em nossa mente sem ter um nome, e que por isso são difíceis de serem traduzidos em palavras. É como se dentro de nós houvesse uma biblioteca cheia de “livros-sentimentos”, dentre os quais alguns não foram catalogados e por isso não costumam ser lidos com freqüência, mas eles estão lá. Esse tipo de representação não costuma ser acessada pela via das idéias e abstrações, e sim em momentos de grande emoção: um cheiro, um toque, um gesto, uma dor, um gosto, um trauma, uma música etc. Resultado: os músicos fizeram um trabalho tão bem feito que muito antes de o padre abençoar a união do casal e selar o contrato matrimonial, as pessoas já estavam chorando, ficando arrepiadas, sorrindo com brilho nos olhos.
Fiquei grato por isso. A mensagem e os votos de amor e felicidade tocaram mais fundo e fizeram mais sentido do que a celebração do contrato. Contrato esse que, em que pesem as opiniões do papa, não pode ser revisto.
Acho que os divórcios e novos casamentos são uma solução possível para uma praga antiga, que são as uniões litigiosas e melancólicas que se sustentam após o amor ter sido vencido, e nas quais o matrimônio se ampara apenas nas obrigações morais de um contrato caduco. Isso não é o mesmo que trocar de parceiro como quem troca de roupa, mas sobretudo a valorização do amor, este sim o centro de um casamento. A praga mais perigosa está no gesto daqueles que tentam dogmatizar esse sentimento.
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