29.3.07

Casamento, de novo


Na crônica da semana passada, expressei alguns pensamentos acerca da polêmica em torno da encíclica recentemente divulgada pelo Vaticano na qual o papa Bento 16 se refere ao segundo casamento como sendo uma “praga” dos tempos atuais. Advoguei em favor da idéia de que os divórcios e recasamentos não precisam ser de natureza nefasta e insidiosa, tal qual o termo “praga” sugere. Para tanto, lembrei a natureza falível de nossos sentimentos, sonhos e projetos de vida (na verdade, extensões da própria falibilidade humana).

Coincidência ou não, estive em Americana no último final de semana como convidado para a cerimônia de casamento de uma amiga. Foi uma experiência muito bonita e emocionante.

Gosto das simbologias deste acontecimento: os convidados distribuídos pela igreja, marcando a presença de todos os que acompanharam a trajetória do casal, e a união de duas famílias; as alianças demarcando uma identidade (“entidade idem”, igual) de destinos; os presentes dos convidados, que ajudam a formar o lar do casal; a oração com a mão estendida para os noivos, numa comunhão em que todos desejam felicidades a eles etc.

O momento de que mais gostei, no entanto, foi aquele com a participação dos músicos: um flautista, um violinista, um tecladista e um coral maravilhosos. Fiquei arrependido de não ter pego o cartão de visitas deles. No início da cerimônia, eles apresentaram três canções que pareciam narrar uma história e, juntas, constituíam uma sintaxe própria: “Vivo por ela” (versão de uma música muito famosa na voz de Andrea Bocelli) na chegada do noivo, depois vieram “Ode à alegria” (adaptação da nona sinfonia de Beethoven) na entrada dos padrinhos e, antes de a noiva adentrar a igreja, “She”, popularizada por Elvis Costello.

A música tem um poder encantador, por vezes hipnótico. Apesar de a letra transmitir as idéias, é a melodia que nos embala, talvez por ser a parte da canção que não tem palavras. Freud nos mostrou que existem sentimentos muito fortes e profundos que ficam registrados em nossa mente sem ter um nome, e que por isso são difíceis de serem traduzidos em palavras. É como se dentro de nós houvesse uma biblioteca cheia de “livros-sentimentos”, dentre os quais alguns não foram catalogados e por isso não costumam ser lidos com freqüência, mas eles estão lá. Esse tipo de representação não costuma ser acessada pela via das idéias e abstrações, e sim em momentos de grande emoção: um cheiro, um toque, um gesto, uma dor, um gosto, um trauma, uma música etc. Resultado: os músicos fizeram um trabalho tão bem feito que muito antes de o padre abençoar a união do casal e selar o contrato matrimonial, as pessoas já estavam chorando, ficando arrepiadas, sorrindo com brilho nos olhos.

Fiquei grato por isso. A mensagem e os votos de amor e felicidade tocaram mais fundo e fizeram mais sentido do que a celebração do contrato. Contrato esse que, em que pesem as opiniões do papa, não pode ser revisto.

Acho que os divórcios e novos casamentos são uma solução possível para uma praga antiga, que são as uniões litigiosas e melancólicas que se sustentam após o amor ter sido vencido, e nas quais o matrimônio se ampara apenas nas obrigações morais de um contrato caduco. Isso não é o mesmo que trocar de parceiro como quem troca de roupa, mas sobretudo a valorização do amor, este sim o centro de um casamento. A praga mais perigosa está no gesto daqueles que tentam dogmatizar esse sentimento.

(29/03/2007)
O clipe de "She", com Elvis Costello, é este aqui:

Marcadores: ,

22.3.07

A praga do amor infalível

Todo documento papal costuma chamar bastante atenção e gerar muita discussão. Isso não é só porque o papa centraliza o poder da Igreja Católica de Roma, uma das instituições mais antigas da História, com milhões de seguidores pelo mundo, mas sobretudo porque, na tradição católica, quando o Papa se pronuncia a respeito da fé e da moral, ele goza de um atributo sobre-humano: a infalibilidade papal, um dos dogmas da Igreja, o qual reforça o poder de suas palavras.

Pois bem, a polêmica mais nova foi causada pela encíclica Sacramentum Caritatis (sacramento do amor), na qual Bento 16 se refere ao segundo casamento como uma “praga do ambiente social contemporâneo”. A palavra “praga”, inclusive, já havia sido empregada pelo seu antecessor, João Paulo II, para se referir aos divórcios. Ora, como chefe de uma religião, é esperado que o papa se dedique à defesa dos sacramentos de sua Igreja. O surpreendente é que, para empreender tal tarefa, Bento 16 tenha escolhido desqualificar a opção de quem segue caminhos diferentes daquele que ele defende. Afinal, “praga”, ao que manda um bom dicionário, é algum tipo de maldição ou desgraça coletiva.

O casamento não é unicamente uma celebração de uma união. Como instituição, é um contrato entre duas pessoas. Na fé católica, esse contrato é abençoado. Talvez resida aí a preocupação com o aumento no número de divórcios e de pedidos de anulação de casamento, afinal, se a santidade do casamento pode ser desfeita, o próprio poder da Igreja encontra uma limitação.

A questão é que o mais importante na vida de duas pessoas que se amam e trilham um caminho juntas não é o contrato que sustentará a união, mas sim o desejo que há dentro da relação.

Um exemplo vem da clínica psicanalítica, a partir da situação de procura do paciente por um terapeuta. Nesse encontro (também uma aliança) deve haver a estipulação de um enquadre que forneça parâmetros básicos para o tratamento, como o dia e a hora das sessões, os honorários, alguns compromissos etc. Embora isso constitua um tipo de contrato, não se espera que um paciente compareça ao seu tratamento só porque assim foi combinado, mas sobretudo porque ele deseja estar lá para fazer sua parte no processo terapêutico. Ou seja, um vínculo pode até ser oficializado por um contrato, mas só pode ser preservado pela via de um desejo.

Na vida de um casal, se a união é justificada pela formalidade de um contrato, toda a vida conjugal acontecerá pelo mero cumprimento de normas e papéis, e não pelos sentimentos, razão pela qual o casal se uniu.

E como o que conta na hora de viver uma vida amorosa é o desejo do casal, é natural que os divórcios e recasamentos aconteçam. Afinal, o amor é espontâneo, indomável, e não tem como ser ensaiado. Por isso erramos tanto nele. Se o papa é infalível, como dizem, não sei. Nós não somos, nem nossos amores.

(22/03/2007)

Marcadores: ,

17.3.07

Elementar, caro doutor


Como você vê o trabalho de um psicoterapeuta? O próprio Freud nos legou uma imagem, da qual sempre fazia referência: a do arqueólogo. O terapeuta precisaria garimpar e escavar a alma do paciente, camada por camada, para revelar as construções do passado sepultadas no inconsciente.

Só que a mente não é um sítio arqueológico quieto, pacificado pelo tempo. Ao contrário: há muitos segredos, perigos, mentiras, conflitos, sabotagens etc. Daí veio uma nova imagem: a do investigador. Agora, o terapeuta deve ser um detetive e, além de explorar o passado, deve ser um bom observador, proteger a saúde do paciente e caçar as patologias. Embora essa imagem não seja muito boa porquanto faz parecer que o terapeuta atua de forma policialesca, ela pelo menos condiz com um requisito básico para um bom terapeuta: sensibilidade clínica afinada.

Hoje, acho que na psicanálise moderna o analista deve ser como um companheiro de viagens da mente e das emoções, mas isso não vem ao caso agora.

Essa imagem do “Dr. investigador” me veio à lembrança pela leitura de um excelente livro: “Um antropólogo em Marte”, do neurologista inglês Oliver Sacks. É um de seus livros mais conhecidos, ao lado de “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” e “Tempo de despertar”.

Sacks é adepto daquilo que ele chama de “ciência romântica”, que propõe tratar e produzir conhecimento médico sem frieza, em contato com a subjetividade do paciente; ou seja, procurar ver como cada paciente convive com sua dor. Seus relatos de casos são todos tão fabulosos quanto reais, explorando as infinitas possibilidades de nossos cérebros. Exemplos são o caso do cego que volta a ver e precisa aprender a usar a visão; o do pintor que, após um acidente, torna-se daltônico; os de pessoas que sentem dores em membros amputados; os de pessoas que não esquecem nada etc. Todos os seus livros reúnem alguma seleção de casos assim, com valor científico e literário. Imperdíveis.

Outro excelente médico-detetive é o fictício Gregory House, da ótima série de TV “House”, que começa sua terceira temporada hoje no Brasil, pelo canal pago Universal Channel.

House e sua equipe trabalham no centro de diagnóstico de um hospital. Para eles são enviados casos difíceis e geralmente “estranhos”, não solucionados pelos demais médicos. House é um médico polêmico por seus métodos e seu péssimo humor, mas quase sempre trata com sucesso seus pacientes. Para tanto, ele lida com o quadro clínico do paciente quase como uma cena de crime: o que causa o transtorno é o bandido, os sintomas são as pistas, os exames são a perícia, e o diagnóstico é a grande solução. Aliás, há várias pistas escondidas na série que revelam que o personagem foi inspirado em Sherlock Holmes.

Enfim, “House”, os livros de Oliver Sacks, assim como a própria psicanálise em outros tempos, nos falam de como nossos corpos, cérebros e mentes são misteriosos, interessantes e complicadíssimos. Assim como os estudos de doenças, síndromes e transtornos de todo tipo revelam o quanto que os homens sofrem suas dores e se mantêm em luta com elas a vida toda.

Ainda bem que somos, em todos os níveis, complexos. Fosse o homem muito simples, ele jamais saberia se tratar.

(15/03/2007)

Marcadores: ,

8.3.07

Cento e quarenta anos de solidão



O mundo das letras está em festa. Dentro de alguns meses será o 40º aniversário da publicação de “Cem anos de solidão”, considerada por muitos, senão a obra-prima, a pedra fundamental da carreira do colombiano Gabriel García Márquez. Aliás, 2007 marca também os vinte e cinco anos de sua conquista do Prêmio Nobel de Literatura.

“Cem anos de solidão” é a história dos Buendía, uma família que vive na fictícia Macondo, uma aldeia isolada do resto do mundo. A narrativa percorre sete gerações da família, e nos fala de um universo mágico e ao mesmo tempo realista que mescla miséria, amor, destruição, política, vida cotidiana, fantasia, problemas sociais etc. (sim, ainda tem espaço para o “et cetera”). O livro é tão denso e rico que permite vários panoramas e interpretações diferentes. Para alguns, por exemplo, o livro é uma alegoria sobre a América Latina; outros vêem ali a própria história da humanidade. Há quem destaque o drama existencialista subjacente, e já até ouvi dizer que a obra vale como “uma enciclopédia do imaginário”.

A variedade de leituras possíveis para o mesmo livro destaca, a meu ver, uma das principais qualidades de “Cem anos de solidão”, que é o de retratar a realidade elevada à décima potência onírica. A esse estilo os literatos deram o nome de “realismo fantástico”. Esse termo atesta o quanto do lirismo impecável de García Márquez se espreita com naturalidade por territórios de sonhos e fantasia, o que justifica a existência de tantas interpretações possíveis.

Tendo em vista essas considerações, torna-se tarefa impossível isolar um tema principal em “Cem anos de solidão”. Entretanto, há um elemento comum que chama atenção dos leitores do livro logo nos primeiros capítulos: a trama se enrosca rapidamente na confusão entre os personagens. É que ao longo das gerações, os Buendía vão se amando e tendo filhos com nomes muito parecidos e repetidos. As personalidades e sinas de cada um também se repetem, o que reflete o continuísmo dentro da família, presa a um único destino. A confusão (literalmente uma “con-fusão”) é tamanha que há quem recomende a leitura do livro com um caderninho a tiracolo para desenhar a árvore genealógica da família e não se perder na história.

Acho a estratégia exagerada, até porque a família em si já funciona como um personagem único. Mas já que estamos em território onírico, não custa nada uma interpretação psicológica. Essa transmissão não só de nomes, mas também de tragédias e encargos para as gerações futuras, dentro de uma família, recebe o nome de transgeracionalidade. Isso quer dizer que os genitores de uma criança ainda preservam dentro deles algo da essência de suas famílias de origem (valores, estereótipos, missões, tradições). Assim, os conflitos mal-resolvidos de um indivíduo com seus pais tendem a ser revividos ou “ressuscitados” com seus filhos, e assim ao longo das gerações. Esse pode ser um problema sério e silencioso, que se dá por uma transmissão de inconsciente a inconsciente na vida familiar.

Os Buendía passaram aos seus filhos um deserto de solidão. García Márquez transmitiu a todos nós um clássico da literatura moderna. E você, que heranças – entre tesouros e dívidas – deixará como legado para seus filhos?

(08/03/2007)
Em tempo: um bom exemplo de conflito transgeracional parece ser o daquele presidente dos EUA que não sossegou até derrubar e matar o inimigo de seu papai, que também governou aquele país alguns anos antes.

Marcadores: ,

3.3.07

Desemprego e desesperança


Com uma certa freqüência, ouço dos mais velhos que há algumas décadas não era tão difícil encontrar emprego, no Brasil, como é hoje. Essas mesmas opiniões ilustram um cenário que nunca vi e nem vivi, que é o do trabalhador que sai de casa pela manhã e retorna ao fim do dia já com a carteira assinada, ou com pelo menos alguma proposta ou oportunidade a ser avaliada.

Existem muitas teorias de base econômica, política e social para explicar o aumento nos índices de desemprego e a dificuldade em combater seu avanço. Porém, poucas delas são as que primam pela valorização dos aspectos psíquicos e emocionais a ele atrelados.

Você não precisa ter passado por isso para saber pois, regra geral, todo o mundo conhece pelo menos uma pessoa que esteja penando para encontrar um emprego ou uma fonte de renda. O desemprego é vivido, como não poderia deixar de ser, como uma situação de crise econômica. Mas o sofrimento que ele carrega denuncia uma abrangência muito maior na nossa vida, que o faz extrapolar o universo do trabalho e tocar profundamente em crises existenciais. Pode notar: quando você conhece uma pessoa, em qualquer situação que for, a pergunta referente à ocupação (“você trabalha com o quê?”) é uma das primeiras a serem feitas. Eu inclusive me lembro de situações em que essa questão veio antes até do interesse em saber meu nome. Outra situação parecida: repare que quando alguém aparece na televisão dando algum depoimento, a legenda que consta na tela é sempre no mesmo formato: “Fulano da Silva, jornalista”, “Sicrana de Sousa, professora”. Pelo mesmo princípio, meu nome segue abaixo, como assinatura deste artigo, fazendo referência à minha formação de psicólogo.

Há dois aspectos aí: 1) as nossas profissões não só destacam funções sociais, como também tentam englobar as nossas identidades, e o desdobramento desse fato é que 2) a identidade profissional passa a ser usada para ocultar as subjetividades. Assim, quando nos apresentamos e nos reconhecemos como profissionais, omitimos toda a nossa vida concreta, de “pessoa comum”. E isso não está restrito às situações de formalidade; fazemos isso todos os dias. Ou seja, na sua vida privada o sujeito se vê como pessoa (considera suas paixões, sonhos, medos, “manias”, defeitos, virtudes...), mas na vida social isso tudo some, e ele prefere se fazer notar pelo lado profissional. Não é de se espantar, já que os mandamentos vigentes em nosso tempo prezam pela autonomia máxima do indivíduo, o que é representado por aquilo que lhe dá um mínimo de independência. No caso, seu trabalho. Abdicamos de um reconhecimento da vida concreta da pessoa; agora só reconhecemos o que ela faz.

Quando o sujeito não consegue arrumar um emprego ou perdeu um, sua angústia é bem maior do que o incômodo das dificuldades financeiras. A ele se soma o mal-estar (talvez mais grave do que o “aperto” de dinheiro) de um vazio de sentidos, um vácuo existencial pela ausência dessa identidade. Se essas suposições têm fundamento, o desemprego no país é ainda mais grave do que já é, porquanto não seria só um problema econômico, político e social, mas também uma questão de saúde pública.

(01/03/2007)

Marcadores: