26.2.07

Sonhar Cinema



O que é, o que é? É um acontecimento que costumeiramente se dá num ambiente fechado e escuro. É constituído por imagens e cenas, personagens e representações. Geralmente envolve sentimentos e idéias, desperta emoções e mobiliza reflexões. Seu produto pode ser interpretado de várias maneiras, com significados diferentes para cada um. No geral, é uma espécie de ilusão que nos permitimos ter por algumas horas.

Se você entende que estou falando do cinema, está correto. Mas relendo as dicas acima, note que há outra resposta válida para minha pequena charada: o sonho. Sim, o sonho, aquele fenômeno psíquico que acontece toda noite, enquanto dormimos. A familiaridade entre cinema e sonho está presente no saber popular. Repare que as pessoas muitas vezes se referem aos seus sonhos como “filminhos” vistos durante o sono. Além disso, a própria narrativa do sonho, quando o contamos para alguém, segue uma linha parecida com o de uma peça cinematográfica: há personagens, ações, clímax e um roteiro mais ou menos estruturado.

Cada vez mais os psicanalistas contemporâneos têm considerado o cinema como uma fonte riquíssima para se discutir os saberes em torno de nossa mente. Na verdade, as correlações entre cinema e sonho são só a porta de entrada para um novo terreno simbólico de onde a psicanálise pode ser contemplada. Assim, a psicanálise atual tem se valido da sétima arte como uma matriz de livre reflexão e de ilustração de suas idéias, teorias e saberes.

Como assim? As ficções (não só o cinema, mas também o teatro, a literatura e as séries de TV) fornecem material inesgotável para vislumbrar a vida com outros olhos, ampliando nossa experiência cotidiana. Um exemplo: você pode tomar conhecimento da guerra entre traficantes nas favelas a partir de uma notícia de jornal, mas assistir a um filme como “Cidade de Deus” traz algo mais, que no caso é a possibilidade de ver o mundo pela narrativa de um personagem que está dentro daquela realidade. Ou seja, o cinema não é só formativo, ele nos envolve profundamente ao nos mostrar os diferentes repertórios da própria vida. E não precisa ser um filme tão realista quanto o do exemplo acima. Mesmo histórias fantásticas, como as da trilogia “Matrix”, ou contos de fadas modernos, como “Forrest Gump”, nos garantem um caldo cultural rico de situações e temas a serem apreciados, analisados e discutidos à luz da psicanálise.

O próprio Freud apreciava as ficções e as incluía, de alguma maneira, em suas obras. O complexo de Édipo, só para ficar em um exemplo, faz referência a um mito relatado na peça teatral do grego Sófocles. Só que Freud não deu atenção ao cinema como deu à literatura e à poesia em seus estudos.

Hoje, considerar os filmes como “primos” do sonho, é um bom exercício para saber mais sobre a psicanálise e, em conseqüência disso, do próprio homem. Assim, convido a todos a visitarem um blog que criei recentemente e que chamei de Sonhar Cinema. Numa freqüência mensal, publicarei nesse espaço um ensaio de minha autoria sobre a análise de algum filme. E o primeiro deles é “O show de Truman” (1998), de Peter Weir, com Jim Carrey e Ed Harris.

(22/02/2007)

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17.2.07

Sobre a redução da maioridade penal


Não há como não ficar horrorizado com a morte de João Hélio, 6 anos, que foi arrastado por um carro num trajeto de 14 ruas, resultado de um roubo praticado por um grupo de jovens, no Rio de Janeiro, na semana passada.

Um ato horrendo como esse agride qualquer senso de justiça e humanidade, e mina a crença nas capacidades coletivas de manter uma sociedade civilizada. Funciona, então, como uma agressão para a sociedade, insuflando ódio, temor e comoção na população como reações ao episódio.

Temos assim um “trauma social” e algumas respostas da sociedade para atenuar as ansiedades coletivas que isso gera. Pronto. Está preparado um terreno fértil para o ressurgimento de um antigo sintoma social: a redução da maioridade penal.

Entre os envolvidos no crime havia um adolescente de 16 anos. Pela constituição, ele só poderá ter pena de até três anos, se condenado. Há muita gente descontente com essa situação, e isso reacende as discussões sobre as propostas de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Tanto que o Senado já incluiu essa matéria nas discussões da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) para as próximas semanas.

Cuidado: soluções tomadas rapidamente em resposta a grandes paixões podem encobrir outros problemas. Agora, querem que um adolescente de 16 anos possa ser condenado como um adulto. Há projetos ainda que propõem 13 anos. Ora, me pergunto que tipo de concepção de desenvolvimento humano os proponentes dessas idéias têm em mente. Em geral, alega-se que um adolescente de 16 anos já sabe o que é certo e errado, e, portanto, pode ser responsabilizado integralmente pelos seus crimes.

De fato, a intuição de bem e mal surge cedo na vida. A noção de morte também. Mesmo crianças têm já um protótipo de moral internalizado, são capazes de entender e sentir culpa, e também de se colocarem no lugar do outro. Ou seja, a questão não é se um adolescente de 16 anos tem condições de saber se está agindo bem, porque até uma criança de 7 anos saberia. A questão é que o cumprimento de contratos sociais, imperativos morais e sobretudo responsabilidades exige um grau de consciência que o psiquismo do adolescente, em muitos casos, não elaborou adequadamente ainda. Isso em nada justifica a participação de um adolescente num crime, mas chama a atenção para a complexidade da questão, que não pode ser resumida em sua dimensão punitiva.

Há casos ainda em que a ida ao mundo do crime não pode ser explicada por teorias sociológicas ou desenvolvimentistas. São os casos em que o criminoso apresenta um perfil sociopata (ou psicopata). Mas mesmo nesses casos, o problema não é a idade do criminoso, mas sua condição psicopatológica. Enfim, o que quero dizer é que não é a idade que define o criminoso.

Chamei as propostas de redução da maioridade penal de “sintoma social” porque desconfio seriamente de que o desejo geral de responsabilizar os jovens cada vez mais cedo pelos seus erros seja proporcional à incapacidade da sociedade de assegurar a todos eles condições para uma vida digna. Ou seja, a incapacidade é a de reconhecer que as falhas desses adolescentes também são da sociedade. A repressão pela lei, por essa proposta, é igual à repressão psíquica: encobridora da realidade.

Qual realidade? Quem responde é o presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D´Urso, ao afirmar que “o Estado e a sociedade não têm moral para falar em redução de maioridade penal porque pouco fazem em favor da recuperação desses adolescentes”. Se quisermos que mortes sem sentido como a do pequeno João parem de acontecer, a sociedade deve então parar de produzir jovens assassinos em vez de só exigir, num moralismo hipócrita, novas repressões.

(15/02/2007)

Clique aqui para saber mais sobre a campanha da qual faz parte o Conselho Federal de Psicologia contra a redução da maioridade penal no Brasil.

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10.2.07

Apocalipse agora


Parece que o assunto do momento é o aquecimento global e o futuro do clima em nosso planeta (e, com ele, o nosso próprio).

Com o perdão do trocadilho, o que tem esquentado a discussão mais recente é a divulgação dos resultados preliminares do quarto relatório de avaliação atmosférica feito pelo IPCC (sigla em inglês para Painel Internacional sobre Mudança Climática). E não é para menos: segundo as conclusões do órgão, que é vinculado à ONU e do qual fazem parte mais de 600 especialistas de vários países, o futuro da Terra é sombrio.

O prognóstico: tempestades mais fortes, secas em áreas maiores, furacões mais intensos, aumento da temperatura da atmosfera, mais derretimento de neve e gelo, e a conseqüente elevação do nível do mar. O saldo disso tudo inclui a destruição de muitas cidades e a extinção de várias espécies animais, só para começar.

Contudo, talvez a notícia mais importante do relatório não seja a da disparada de um alarme apocalíptico, mas a da conclusão inconteste dos cientistas de que os problemas climáticos que enfrentamos são conseqüência direta da ação do homem.

Muita gente quer acreditar e fazer crer que o aquecimento global é um fenômeno natural. Mas os cientistas não deixam dúvidas: estamos colhendo os frutos de nosso inconseqüente modo de vida. Verdades como essa doem em qualquer um, mas como psicoterapeuta afirmo que se as verdades doídas (aquelas de que não gostamos de descobrir) tiverem chances de formar algum tipo de consciência, o resultado não são culpas, mas responsabilidades. Com isso quero dizer que há o que ser feito além de ficar só reclamando do calor.

De modo geral, os dados do relatório do IPCC sustentam a validade de uma metáfora de que não gosto de usar, mas que, desgraçadamente, é confirmada quase diariamente: o homem possui um lado parasita.

Parasita no seguinte sentido: passamos grande parte de nossas vidas absorvendo coisas boas das pessoas e do mundo ao redor sem nos preocuparmos muito com as contrapartidas. É desde dentro do útero que o bebê suga alimento, proteção e afeto de sua mãe; depois, na infância, a criança “rouba” para si elementos identificatórios dos pais para constituir sua personalidade; mais tarde, na escola, ela sugará dos professores o seu conhecimento. Egoísta? Não. Apenas uma voracidade sadia e necessária para assimilar o mundo e estabelecer as relações com ele.

O problema é quando esse fundinho parasita reaparece em outras situações, o que parece ser o caso quando se trata da forma como lidamos com o planeta. Gostamos de carros e de produtos industrializados, precisamos de energia e a usamos em abundância, e sentimos necessidade de explorar os recursos naturais em geral. Mas quando é que paramos para pensar sobre o preço disso tudo? Ou seja, o homem é parasita do ambiente quando o explora perversamente, sem considerar que ele mesmo faz parte da natureza e, por isso, deve tomar o compromisso de manter-se em equilíbrio com ela.

Por isso que achei importante o laudo do IPCC, que responsabiliza o homem pela tragédia ambiental. A vantagem de transformar verdades em consciências é que isso gera responsabilidades e, com elas, a chance para mudar as coisas. Diferentemente dos parasitas, os humanos são capazes de rever sua história e re-alinhar os rumos de sua existência, garantindo alguma sustentabilidade, mesmo contrariando essa natural voracidade parasítica. Isso, é claro, dentro de um projeto coletivo de proporção global. Em bom Português: é bom cuidarmos melhor da Terra, até porque não temos outro hospedeiro para explorar.

(08/02/2007)

Em tempo, uma curiosidade: em "O mal-estar na civilização", um dos artigos de Freud mais impressionantes (na minha opinião), fica a sugestão de que o homem se organiza em sociedade como uma forma de, entre outras coisas, proteger-se das forças da natureza. É então irônica e desafiadora a constatação de que o que serviu para proteger o homem da natureza foi usada para destruí-la e, agora, deve protegê-la.

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1.2.07

Mundos de fantasia


Há algumas semanas, fui assistir a “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger. O filme é brilhante, muito bem produzido, e dotado de sensibilidade rara. Na semana passada, aliás, saiu sua indicação para o ilustríssimo Festival de Cinema de Berlim. Acho realmente uma pena que tenha ficado tão pouco tempo em cartaz no circuito de cinema daqui da cidade.

Uma breve sinopse, para começo de conversa: a história acontece em 1970, quando a perseguição política do regime militar está no seu auge. Acompanhamos o menino Mauro, 12 anos, que precisa ficar sob os cuidados do seu avô, uma vez que seus pais, militantes opositores da ditadura, precisam cair na clandestinidade (ou “sair de férias”, como eles explicam ao garoto). Mauro acaba não encontrando seu avô, tendo que se virar com a ajuda das pessoas do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, para sobreviver e esperar pela volta de seus pais, prometida para o início da Copa do Mundo daquele ano.

O filme não é do gênero infantil, mas está todo projetado pelas lentes da infância. Aliás, Cao Hamburguer é catedrático no que diz respeito a construir e brincar com elementos do universo infantil, vide seu inesquecível trabalho em “Castelo Rá-Tim-Bum”, premiado programa da TV Cultura nos anos 90. Assim, toda a confusão daquela época, que misturava o horror da ditadura com o otimismo da campanha do Tri, é narrada pelos olhos da infância.

O entendimento que a criança tem a respeito do mundo é um processo ativo, como em resposta a um "instinto de conhecimento". É inútil e sem sentido, no entanto, esperar que uma criança compreenda o que é repressão, perseguição política, autoritarismo, exílio, ditadura e afins (aliás, até para os adultos essas coisas são difíceis de entender e explicar...). Porém, Mauro pode equacionar tudo isso que ele ainda não é capaz de compreender na crença de que seus pais estão de férias.

É esperado que a criança aprenda que existe uma latência entre um desejo e sua satisfação. Essa lacuna é naturalmente preenchida pela via da fantasia, como uma forma de um escapismo sadio. Ou seja, para a criança, imaginação e realidade se misturam muito bem. Mas isso não significa que ela viva num mundo à parte; a diferença está nos graus de consciência da criança e do adulto, que são diferentes.

O filme de Hamburger é prova disso: fala do exílio, da solidão e de um sentimento de estar perdido naqueles anos de chumbo, mas não na pele dos adultos que enfrentaram as tensões daquele período, e sim na do menino, sob o olhar da infância. Mauro também é, num certo sentido, um exilado: sente-se um estranho na comunidade que o acolhe, longe de quem deveria protegê-lo, privado dos pais e torturado pela saudade. A dor infligida pela ditadura também é vivenciada por ele, e o filme é sábio e singelo ao propor esse ponto-de-vista diferente.

Devemos tomar cuidado quando separamos o mundo das crianças do mundo dos adultos. Na atualidade, a tendência é idealizar o primeiro, concebido como um paraíso perdido. Mas na verdade não é bem assim. Para quem vê de fora, a infância é só brincadeira e proteção; mas para quem ainda a vive, é uma fase difícil, cheia de dificuldades e aflições. É duro e muita gente se esquece, mas criança também sofre.

(01/02/2007)
Confira o trailer de "O ano em que meus pais saíram de férias":


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Atraso

Por conta de uma falha de comunicação com O Imparcial, o artigo de 25/01/2007 não pôde ser publicado. O mesmo só saiu na edição de 01/02/2007, ou seja, com uma semana de atraso.

Aos que sentiram falta de meu texto, meus pedidos de desculpas.

Carlos.