Sonhar Cinema

O que é, o que é? É um acontecimento que costumeiramente se dá num ambiente fechado e escuro. É constituído por imagens e cenas, personagens e representações. Geralmente envolve sentimentos e idéias, desperta emoções e mobiliza reflexões. Seu produto pode ser interpretado de várias maneiras, com significados diferentes para cada um. No geral, é uma espécie de ilusão que nos permitimos ter por algumas horas.
Se você entende que estou falando do cinema, está correto. Mas relendo as dicas acima, note que há outra resposta válida para minha pequena charada: o sonho. Sim, o sonho, aquele fenômeno psíquico que acontece toda noite, enquanto dormimos. A familiaridade entre cinema e sonho está presente no saber popular. Repare que as pessoas muitas vezes se referem aos seus sonhos como “filminhos” vistos durante o sono. Além disso, a própria narrativa do sonho, quando o contamos para alguém, segue uma linha parecida com o de uma peça cinematográfica: há personagens, ações, clímax e um roteiro mais ou menos estruturado.
Cada vez mais os psicanalistas contemporâneos têm considerado o cinema como uma fonte riquíssima para se discutir os saberes em torno de nossa mente. Na verdade, as correlações entre cinema e sonho são só a porta de entrada para um novo terreno simbólico de onde a psicanálise pode ser contemplada. Assim, a psicanálise atual tem se valido da sétima arte como uma matriz de livre reflexão e de ilustração de suas idéias, teorias e saberes.
Como assim? As ficções (não só o cinema, mas também o teatro, a literatura e as séries de TV) fornecem material inesgotável para vislumbrar a vida com outros olhos, ampliando nossa experiência cotidiana. Um exemplo: você pode tomar conhecimento da guerra entre traficantes nas favelas a partir de uma notícia de jornal, mas assistir a um filme como “Cidade de Deus” traz algo mais, que no caso é a possibilidade de ver o mundo pela narrativa de um personagem que está dentro daquela realidade. Ou seja, o cinema não é só formativo, ele nos envolve profundamente ao nos mostrar os diferentes repertórios da própria vida. E não precisa ser um filme tão realista quanto o do exemplo acima. Mesmo histórias fantásticas, como as da trilogia “Matrix”, ou contos de fadas modernos, como “Forrest Gump”, nos garantem um caldo cultural rico de situações e temas a serem apreciados, analisados e discutidos à luz da psicanálise.
O próprio Freud apreciava as ficções e as incluía, de alguma maneira, em suas obras. O complexo de Édipo, só para ficar em um exemplo, faz referência a um mito relatado na peça teatral do grego Sófocles. Só que Freud não deu atenção ao cinema como deu à literatura e à poesia em seus estudos.
Hoje, considerar os filmes como “primos” do sonho, é um bom exercício para saber mais sobre a psicanálise e, em conseqüência disso, do próprio homem. Assim, convido a todos a visitarem um blog que criei recentemente e que chamei de Sonhar Cinema. Numa freqüência mensal, publicarei nesse espaço um ensaio de minha autoria sobre a análise de algum filme. E o primeiro deles é “O show de Truman” (1998), de Peter Weir, com Jim Carrey e Ed Harris.
(22/02/2007)
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