21.9.06

Você tem fome de quê?


O mundo fashion trouxe uma novidade bastante interessante e polêmica neste ano. No circuito da semana de moda de Madri, a direção do evento determinou que seriam proibidas as participações de modelos magras demais nos desfiles. Ficou estabelecido o limite mínimo do IMC (índice de massa corpórea) das modelos em 18 (quando menor que 20, considera-se o peso abaixo do normal), o que na prática impediu a inscrição de várias daquelas profissionais. O objetivo de tal medida, segundo seus idealizadores, foi procurar inspirar uma estética saudável, desvinculando as idéias de beleza e magreza, que são intimamente relacionadas nas culturas ocidentais e cuja associação a própria indústria da moda, com suas modelos magérrimas, ajudou a fortalecer.

Toda essa preocupação há de quê. Cada vez mais os padrões de beleza ditados pelo mundo da moda têm flertado com limites perigosos para a saúde, de modo que fica subentendido que para ser belo é preciso ser magro. E no mundo das passarelas, muito magro. Soma-se a isso o culto ao corpo perfeito. Tudo aparentemente parece culminar num complicado esquema doentio de banalização da magreza excessiva.

Esses fatores estão ligados à escalada da incidência dos chamados transtornos alimentares, que tem aumentado nas últimas décadas (principalmente entre garotas adolescentes e jovens mulheres) a ponto de ser vista por alguns especialistas como uma epidemia.

Dentre os transtornos alimentares, as desordens mais conhecidas são a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. A anorexia nervosa traz um quadro de perda de peso a partir da recusa de alimentos ou da diminuição acentuada de sua ingestão. A bulimia nervosa (retratada na novela “Páginas da vida” com a personagem Giselle) consiste no consumo exagerado de alimentos acompanhado freqüentemente por condutas anômalas para compensar aquela ingestão, como vômitos auto-provocados. Ambos os transtornos são marcados por preocupações excessivas com o peso e culpa.

Embora o organismo seja dotado de mecanismos próprios para lidar com o esquema fome-saciação, o processo de alimentação é fortemente regulado por sistemas mais complexos, de ordem psíquica. Os transtornos alimentares, do ponto-de-vista psicológico, são conseqüência de uma relação patológica com a comida que, na maior parte das vezes, remonta a vivências muito antigas, de quando a pessoa ainda era bebê e encontrava no seio da mãe tudo do que precisava: segurança, afeto, atenção, presença e comida. Ou seja, nossas primeiras experiências de amor (no caso, com a mãe) se dão por meio da alimentação. Relacionar-se mal com os alimentos, recusando-os ou consumindo em demasia, é sinal de que algo vai mal na vida emocional. Isso traz repercussões para a saúde do corpo e da mente, que aos poucos se deterioram. Assim, a anorexia nervosa e a bulimia nervosa são antes de tudo transtornos emocionais, que precisam ser acompanhados por psicólogos.

A decisão dos organizadores da semana de moda de Madri nos chama a atenção para os riscos da busca obsessiva por magreza, e nos faz também pensar sobre os perigos dos transtornos alimentares, que além de fazerem sofrer, podem matar.

A vida é um prato cheio, mas é preciso saber degustá-lo.

(21/09/2006)
Para calcular o seu IMC e saber mais sobre ele, clique aqui.

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15.9.06

Respeito: atitude afetiva

Em geral, quem se treina em psicanálise e a pratica, com o tempo, passa a ser acometido de uma espécie de insuficiência crônica na visão: não se enxergam mais as fachadas. Isso porque os olhos da psicanálise buscam o tempo todo o conteúdo implícito e muitas vezes escondido que mora atrás das fachadas daquilo que é dito e feito por cada um de nós. Ou seja, ao psicanalista interessa compreender e interpretar os diferentes sentidos das realidades psíquicas (em sua função psicoterapêutica) e do mundo à nossa volta (enquanto ramo do saber).

Pois bem. Dias atrás, fui a uma padaria comprar o lanche da tarde. Eu era o segundo na fila do caixa quando se aproximou um homem que acabara de entrar no estabelecimento. Sem rodeios, o rapaz se antecipou a mim e furou a fila. Eu o fiz notar que havia outros clientes aguardando, o que não o fez recuar em sua decisão de ignorar a existência das pessoas que tinham o direito de ser atendidas antes. Deu a desculpa de que era “rapidinho”, como se o tempo fosse a questão ali.

O agravante dessa situação corriqueira, a meu ver, é que o fura-fila era um rapaz que estava a serviço de um comitê de campanha eleitoral. Tanto o seu carro, coberto por inúmeros adesivos de candidatos, como a conversa com a moça do caixa não deixavam dúvidas de que a encomenda era em prol de eventos para algum candidato. Ora, gostaria de encontrar naqueles que trabalham pelo meu candidato o mínimo de respeito por uma regra básica que se aprende no jardim de infância: quem chega depois, vai para o fim da fila.

Numa primeira leitura, tratar-se-ia de uma simples falta de etiqueta, certo? Mas, como eu disse, olhar só para a fachada da situação não basta. A total falta de constrangimento em furar a fila, a despeito das queixas de quem já estava aguardando, tinha ares de outra coisa.

Aqui a psicologia pode ajudar. Existe um tipo de conduta e de personalidade dita sociopata, em que o sujeito se impõe aos outros e desrespeita as regras sociais, sendo incapaz de culpa ou remorso pelos seus atos. O sociopata não é necessariamente alguém à margem da moral, mas alguém que não consegue manter laços afetivos. São as obrigações dos laços afetivos (e os sentimentos positivos que deles fazem parte) que nos impedem de agir de modo incorreto ou imoral.

Assim, mesmo atrasado ou com calor, dirijo-me ao fim da fila para esperar a minha vez. É uma forma de me juntar aos outros por respeito, de modo que a preservação das regras sociais indica que existe um laço coletivo presente: no mínimo, há um “nós” ali.

Com isso não me atrevo a dizer que o tal rapaz seja de fato um sociopata. O fato é que ele ter agido com uma pequena sociopatia fez daquela padaria, naquele momento, uma versão em miniatura do atual cenário político brasileiro: a classe política, manchada por uma crise moral e ética, desrespeitando os direitos dos outros.

*

Nota: segundo o Datafolha, 18% dos eleitores pretendem anular o voto para deputado federal nessas eleições. Número elevadíssimo, que mostra o quanto tem sido difícil encontrar candidatos capazes de se manter em laços coletivos nacionais com o povo.

(14/09/2006)

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8.9.06

Consciência limpa, memória fraca


O livro mais vendido no país atualmente, na categoria ficção, é “O caçador de pipas” (Nova Fronteira), do médico afegão Khaled Hosseini. Diversas pessoas me recomendaram elogiosa e entusiasticamente essa leitura e, na semana passada, pude conferir a razão de tanto estardalhaço. Realmente, a beleza e a sensibilidade do livro me impressionaram.

“O caçador de pipas” é a história de Amir, um garoto que nasce e cresce ao lado do amigo Hassan, no Afeganistão. Eles vivem juntos na mesma casa e, apesar das muitas diferenças que os separam (como etnia, classe social e, sobretudo, caráter), são unidos por laços muito estreitos. No entanto, eles se separam depois de um evento trágico, pelo qual Amir se sente responsável.

Anos depois, Amir foge com o pai para os EUA quando o Afeganistão é invadido pelos soviéticos no fim dos anos 70. Lá ele constrói uma nova vida, mas se torna um homem perturbado pelos ecos dos erros que cometeu no passado. Na verdade, trata-se de uma história sobre a convivência de um homem com o peso da culpa.

De acordo com Melanie Klein, uma notável psicanalista austro-britânica, a culpa é um sentimento pertencente ao amor e interligado ao ódio enquanto emoção. Amor e ódio, como extremos opostos da mesma capacidade, ocupam nossa vida desde a mais tenra infância. Crescendo, aprendemos a separar um do outro: amamos aqueles que são importantes na nossa existência, enquanto reservamos nosso ódio contra objetos bem longe deles, como a vilã da novela, o goleiro do time adversário ou aquele deputado corrupto. Acontece que, às vezes, amor e ódio se enroscam em conflitos na nossa mente: amamos e odiamos a mesma pessoa ao mesmo tempo. A capacidade para sentir culpa nasce então desse embate e é traduzida pelo medo de lesar aqueles por quem temos amor.

A capacidade de sentir culpa tem um aspecto positivo: ela representa um engrandecimento do amor e da abertura para o bem na medida em que oportuniza o amadurecimento de responsabilidades e preocupações para com os outros. Isso quer dizer que sentir culpa é um sinal de humanização, de desenvolvimento. No entanto, a persistência da culpa pela vida toda (e o seu oposto: a total ausência) merece cuidados.

O sentimento de culpa, quando não elaborado, pode ser muito perigoso. Além de aprisionar o sujeito a uma eterna pendência com o passado, pode gerar muitos sintomas ou ainda qualquer circunstância que o leve a encontrar uma punição, nem sempre adequada. No livro, por exemplo, Amir sofre de uma persistente insônia, talvez pelo medo inconsciente de ter pesadelos com seus pecados do passado.

É por conta dessa dinâmica que a resolução do sentimento de culpa encontra saída na reparação, em alguma forma de compensação para com aquele que foi ferido. Nossa cultura chama a isso de redenção. É isso que Amir busca.

No livro de Hosseini, a luta final de Amir é a de conseguir se perdoar consertando, na medida do possível, os erros cometidos com aqueles que o amavam. Para isso, ele precisa encarar seus velhos fantasmas e tentar “ser bom de novo”.

“O caçador de pipas” é, enfim, uma comovente história de redenção, da luta comum a todos para sermos melhores no amor e na dor, e de reverter erros em aprendizados. Por essas e outras, recomendo.

(07/09/2006)
Para ler um trecho de "O caçador de pipas" no site da revista Época, clique aqui.

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2.9.06

Vida de suicida


Soube na semana passada que o Brasil poderá ser o primeiro país da América Latina a desenvolver uma política de prevenção ao suicídio. O Ministério da Saúde instituiu um grupo de trabalho para estudar a questão e formular um plano nacional para abordar o problema.

A iniciativa surge em resposta a um aumento no número de suicídios ocorridos na última década. Em 1994, a média nacional era de 3,9 casos de suicídios registrados por 100 mil; em 2004, esse índice foi para 4,5 por 100 mil (segundo dados do próprio Ministério da Saúde). Esse aumento tem ocorrido no mundo todo, em maior ou menor grau, o que aumenta ainda mais a preocupação.

Além de reverter a trajetória ascendente desses números, a proposta visa também a uma adaptação à recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de considerar o suicídio como uma questão de saúde pública. E há motivos para fazê-lo.

Na semana retrasada, por exemplo, o país ficou chocado com a notícia de um pai que matou os três filhos do segundo casamento e se matou em seguida. Especialistas consultados pela mídia para falar a respeito do caso, além da própria polícia, trabalham com a hipótese do chamado “homicídio altruísta”, no qual a pessoa mata acreditando que, com isso, livra sua vítima de algum tipo de sofrimento. No caso, seria o pai que mata os filhos para poupá-los de sua própria ausência. Se essa hipótese estiver certa, toda anatomia dessa tragédia se equilibra especificamente em um ponto, em uma escolha: a do suicídio do pai.

Nunca saberemos com certeza, mas talvez essa e outras histórias do tipo poderiam ter desfechos diferentes se já houvesse um plano de ação concreto a fim de sensibilizar e conscientizar as pessoas e instituições acerca do problema, até para atenuar os impactos sociais do suicídio e facilitar os devidos encaminhamentos para tratamento.

Há, no entanto, um ponto a ser discutido: o suicídio, mesmo se tornando um problema de saúde pública e sendo abordado de forma coletiva, continua sendo uma questão de foro íntimo, pessoal. O suicida é como o jogador que avalia suas cartas e entende que a vida não lhe deu as de que precisa para jogar. Decide então sair do jogo. Só que nossa cultura impõe um pressuposto fortíssimo, que é o de que a vida é um valor. Sair do jogo da vida cobra, assim, um preço (insisto: um valor) muito alto, principalmente no perigoso terreno minado da moral e do preconceito.

É muito comum a incompreensão do mundo diante dos atos do suicida. “O suicida é aquele que não tem competência para viver”, foi o que um cidadão falou outro dia na TV. E não é nada disso. Há diversos fatores que predispõem o sujeito ao ato suicida. Clinicamente falando, a depressão é um dos mais contundentes nesse sentido. A depressão é uma profunda tristeza, na qual todos os laços bons de afeto e amor que mantêm o sujeito se rompem, deixando-o num desesperado vácuo de sentidos para si e para a vida. Uma resolução freqüente diante desse estado é a própria idéia de morte.

Agrada-me saber, então, que há interesse por parte dos governantes em olhar para a questão a partir de uma proposta que reconhece o sofrimento legítimo do suicida no lugar de julgamentos morais nada construtivos.

(31/08/2006)

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