Você tem fome de quê?

O mundo fashion trouxe uma novidade bastante interessante e polêmica neste ano. No circuito da semana de moda de Madri, a direção do evento determinou que seriam proibidas as participações de modelos magras demais nos desfiles. Ficou estabelecido o limite mínimo do IMC (índice de massa corpórea) das modelos em 18 (quando menor que 20, considera-se o peso abaixo do normal), o que na prática impediu a inscrição de várias daquelas profissionais. O objetivo de tal medida, segundo seus idealizadores, foi procurar inspirar uma estética saudável, desvinculando as idéias de beleza e magreza, que são intimamente relacionadas nas culturas ocidentais e cuja associação a própria indústria da moda, com suas modelos magérrimas, ajudou a fortalecer.
Toda essa preocupação há de quê. Cada vez mais os padrões de beleza ditados pelo mundo da moda têm flertado com limites perigosos para a saúde, de modo que fica subentendido que para ser belo é preciso ser magro. E no mundo das passarelas, muito magro. Soma-se a isso o culto ao corpo perfeito. Tudo aparentemente parece culminar num complicado esquema doentio de banalização da magreza excessiva.
Esses fatores estão ligados à escalada da incidência dos chamados transtornos alimentares, que tem aumentado nas últimas décadas (principalmente entre garotas adolescentes e jovens mulheres) a ponto de ser vista por alguns especialistas como uma epidemia.
Dentre os transtornos alimentares, as desordens mais conhecidas são a anorexia nervosa e a bulimia nervosa. A anorexia nervosa traz um quadro de perda de peso a partir da recusa de alimentos ou da diminuição acentuada de sua ingestão. A bulimia nervosa (retratada na novela “Páginas da vida” com a personagem Giselle) consiste no consumo exagerado de alimentos acompanhado freqüentemente por condutas anômalas para compensar aquela ingestão, como vômitos auto-provocados. Ambos os transtornos são marcados por preocupações excessivas com o peso e culpa.
Embora o organismo seja dotado de mecanismos próprios para lidar com o esquema fome-saciação, o processo de alimentação é fortemente regulado por sistemas mais complexos, de ordem psíquica. Os transtornos alimentares, do ponto-de-vista psicológico, são conseqüência de uma relação patológica com a comida que, na maior parte das vezes, remonta a vivências muito antigas, de quando a pessoa ainda era bebê e encontrava no seio da mãe tudo do que precisava: segurança, afeto, atenção, presença e comida. Ou seja, nossas primeiras experiências de amor (no caso, com a mãe) se dão por meio da alimentação. Relacionar-se mal com os alimentos, recusando-os ou consumindo em demasia, é sinal de que algo vai mal na vida emocional. Isso traz repercussões para a saúde do corpo e da mente, que aos poucos se deterioram. Assim, a anorexia nervosa e a bulimia nervosa são antes de tudo transtornos emocionais, que precisam ser acompanhados por psicólogos.
A decisão dos organizadores da semana de moda de Madri nos chama a atenção para os riscos da busca obsessiva por magreza, e nos faz também pensar sobre os perigos dos transtornos alimentares, que além de fazerem sofrer, podem matar.
A vida é um prato cheio, mas é preciso saber degustá-lo.
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