27.7.06

Achados e perdidos


Um dos programas de TV de que mais gosto é o seriado “Lost”. No ar desde 2004, a série se tornou fenômeno de audiência nos mais de 70 países onde é televisionado. Aqui no Brasil a série está na segunda temporada e pode ser acompanhada no canal pago AXN.

Para quem não conhece “Lost”, trata-se da história de um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo perdido numa ilha tropical. Até aqui a história parece tratar dos desafios pela sobrevivência e pela espera de um eventual resgate, mas logo nos primeiros capítulos o espectador percebe que a trama é muito maior e mais complicada. Coisas muito estranhas passam a acontecer, dando a entender que a tal ilha não é uma ilha qualquer. Acho que é só o que dá para contar sem estragar as surpresas para quem não acompanha o programa. A série se desenrola mostrando mais mistérios a cada segredo revelado, o que transforma a história num labirinto cheio de possibilidades e incertezas.

Um ponto forte de “Lost” são os personagens, bastante interessantes e complexos. Cada episódio enfoca um deles, mostrando sua vida na ilha e alguns acontecimentos antes de ir parar nela, através de flashbacks.

Dessa forma, nota-se que muito daquilo que acontece na ilha com os personagens já foi vivido, de alguma forma, antes de eles irem parar lá, numa espécie de repetição dos dramas pessoais de cada um: temos o médico que se sente no dever de cuidar de todo mundo, a ladra que não consegue parar de mentir, o golpista que vive se fazendo ser odiado por todos, o pai que luta para estar próximo do filho, e assim por diante. Todos revivem na ilha os mesmos dilemas, limites, conflitos e fraquezas por que passaram na vida pré-acidente, mesmo agora, num mundo aparentemente tão diferente do lugar de onde partiram. Estranho, não?

É claro que num universo como o de “Lost”, essa suposta coincidência deve ter alguma explicação inerente à própria história, como os outros mistérios da saga. Mas enquanto ela não vem, fica a oportunidade para interpretar essa ficção de outras formas.

No estudo da psicanálise, por exemplo, os acontecimentos que se repetem na experiência subjetiva da pessoa raramente são vistos como frutos do mero acaso, mas como produtos de nossa mente. Diz o provérbio: “errar é humano; insistir no erro é diabólico”. O psicanalista diria que faz parte do humano reincidir nos mesmos erros.

A neurose nossa de cada dia é isso: a escolha repetitiva de um caminho errado que não se consegue evitar. A repetição traz sempre algo do passado pedindo para ser elaborado. Em outras palavras: algo que está errado e que clama por significação, por mudança. Tudo isso num plano inconsciente, semelhante àquelas músicas que grudam na nossa cabeça, aos sonhos que sempre voltam, e aos sintomas que produzimos.

Enfim, existem muitas teorias tentando montar o quebra-cabeças da série, mas uma coisa já parece clara: seja lá qual for a natureza dos mistérios daquela ilha, “Lost” é a história da luta de pessoas enfrentando suas próprias tragédias, tentando evoluir e melhorar nos pontos em que falham ou sofrem. Pelo menos nesse aspecto, todo mundo é mais ou menos parecido com eles. Afinal, quem é que nunca se sentiu perdido, tentando se encontrar?

(27/07/2006)
Para acessar o "Lostpedia" e saber mais sobre a série, clique aqui.

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21.7.06

Um lugar para ser feliz


“Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que quero / Na cama que escolherei”. Difícil achar alguém que não conheça esses versos de Manuel Bandeira. Desde que o poema foi escrito, em 1930, Pasárgada tem habitado o imaginário popular como um paraíso na Terra, um lugar utópico, capaz de oferecer um ideal de felicidade que combina a uma só vez os prazeres do poder, da riqueza, do sexo e da infância.

Pois bem, esqueça Pasárgada. O quente agora é Vanuatu, um pequeno país de 250 mil habitantes formado por um conjunto de pequenas ilhas no Pacífico Sul. Pelo menos é o que diz um ranking elaborado pela New Economics Foundation, organização inglesa para estudos econômicos, num trabalho recentemente publicado.

Trata-se do Happy Planet Index (Índice Planeta Feliz), que classifica os países de acordo com, digamos, sua “taxa de felicidade”. O estudo considerou três fatores: a expectativa de vida, a satisfação da população (estipulada por pesquisas locais), e o nível dos danos ambientais provocados pelo país.

Multiplica-se a expectativa de vida pelo grau de satisfação da população, e divide-se o valor obtido pela destruição ambiental. Ou seja, a conta procura determinar o quanto dos recursos naturais são utilizados de forma sustentável para garantir o bem-estar de sua população. Assim, o desconhecido Vanuatu ocupa o topo da lista como o lugar mais feliz do mundo. Várias potências mundiais ficaram pessimamente colocadas, como Japão (97º), Inglaterra (108º) e Estados Unidos (150º). O Brasil ficou na 65ª posição.

A proposta é alertar o mundo de que não é necessário esgotar os recursos naturais do planeta para se ter uma vida longa e feliz. Achei a idéia bastante interessante, ainda mais em tempos como o nosso. Mas o que mais chamou minha atenção mesmo foi o fato de ser a primeira pesquisa de que tomo conhecimento a tentar aferir a felicidade dos povos. Acho inclusive que pesquisas como essa mostram o quanto nossa cultura valoriza esse estado de espírito que é a felicidade.

Felicidade é o supra-sumo dos desejos de todo mundo. Uns vivem atrás dela, outros morrem por ela, mas todos a queremos. Repare que são infindáveis os depoimentos de gente que tem por objetivo na vida meramente (como se fosse pouco) ser feliz. Ora, encarar a felicidade como um objetivo, uma meta, permite supor que existem caminhos até ela. Essa é a grande mentira dos livros de auto-ajuda, e também a ilusão de felicidades instantâneas, muitas vezes encontradas nas drogas. Se houvesse receita da felicidade, alguém já estaria rico com ela.

A felicidade não é um destino, nem um bem durável. Não dá para ser feliz o tempo todo, e ainda bem que é assim. A vida, por ser infinitamente variada, reserva espaço também para dores, frustrações e outras emoções. O problema é que idealizamos tanto a felicidade que deixamos de desejá-la como de fato ela é: uma experiência descontínua, que vai e volta. Ninguém é feliz para sempre, como mandam os contos de fada. Desejar um lugar onde só exista a felicidade pode ser um erro, porque implica em fechar uma larga parcela da existência humana. Nesse sentido, viver bem não é só viver feliz: é viver intensamente.

(20/07/2006)
Para conhecer o Happy Planet Index e ver o relatório completo, clique aqui.

14.7.06

Carpe diem


Assisti ao longa de animação “Carros”, produzido pela Disney com os estúdios Pixar. Dirigido por John Lasseter, o Midas da animação digital, o filme traz uma história boa não só para as crianças. Pode também promover reflexões bastante úteis para os adultos que as acompanharem nas exibições.

Num mundo habitado apenas por automóveis, acompanhamos a trajetória de um carro de corrida que adora velocidade e competição, vive com pressa de chegar aonde quer e, convencido e prepotente, dispensa os serviços de sua equipe de pit-stop. Assim, ele não poderia ter um nome mais apropriado: Relâmpago McQueen. Por conta de um incidente, Relâmpago se vê obrigado a passar alguns dias em Radiator Springs, uma pequena cidade perdida no deserto e parada no tempo.

Nesse lugar ele encontrará um mundo diferente daquele com que está acostumado a lidar, já que a velocidade e o individualismo parecem não ter vez por lá. Assim, como é de praxe em qualquer boa história infantil, surge o desafio do herói: crescer, com aprendizados e descobertas próprios desse processo. É na simplicidade e na lentidão desse lugar, perdido no meio do nada, que ele terá a oportunidade de entender coisas que antes não enxergava por passarem sempre tão rápido diante dos olhos, como a amizade, o valor dos mais velhos, a confiança no outro e o verdadeiro sentido de suas vitórias nas corridas.

Dessa forma, “Carros” é em grande medida um elogio ao passado, a um tempo em que as coisas aconteciam (de acordo com a noção que temos hoje) num ritmo bem mais calmo, sem a pressa e a correria da modernidade.

Se me lembro bem, na Física, velocidade é a razão do espaço percorrido por um corpo pelo tempo. Uma simples fórmula que redunda num número preciso, que indica quão rápido um corpo se move. Bom, na nossa vida prática, a velocidade do mundo é bem mais difícil de entender.

A experiência moderna do tempo nos fornece um mundo dinâmico, cheio de possibilidades e cada vez mais acelerado. Mas isso tem seu preço. A cadência do tempo, cada vez menor, encurta nossos prazos. Ou seja: o agora dura muito pouco, ele mal conta.

Na nossa cultura, o futuro pesa muito. Todas as nossas ações se voltam para ele. Não há vez para o presente. As pessoas pensam primeiro no que farão a seguir, preocupam-se antes com o minuto seguinte: tudo é o futuro. Tanto é assim que sempre estamos comentando, assombrados, sobre o quanto o tempo passa depressa, pois se o agora não dura nada, o tempo voa mesmo.

O tempo passa rápido quando não se está naquilo que se faz. O momento presente, que é o que conta, perde sua materialidade quando se tenta correr atrás apenas do dia seguinte.

Talvez uma das maiores neuroses (conjunto de manifestações “inadequadas” diante de situações vividas) da nossa modernidade seja justamente aquela ilustrada no filme: corre-se muito sem nem saber ao certo aonde se quer chegar, e com o alto preço de deixar de colher o dia.

Assim, um dos grandes méritos da história do filme é justamente o de alertar sobre nossa dificuldade em reconhecer a hora em que a vida acontece: agora.

(13/07/2006)
Para conferir o site do filme "Carros", clique aqui.

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6.7.06

Hex-campeões

Em dezembro de 1968, os Rolling Stones estrelaram um programa especial para um canal de TV britânico que serviu para promover e divulgar o lançamento de um disco da banda. O show contou com uma série de convidados especiais, todos de primeira grandeza, como John Lennon (à época, ainda com os Beatles), Eric Clapton e a banda The Who. O destaque ficou por conta de uma apresentação raríssima, que reuniu num só palco uma seleção ímpar: Lennon nos vocais, Clapton na guitarra, Keith Richards, dos Stones, no baixo, além de Mitch Mitchell, do The Who, na bateria.

O resultado foi medíocre perto do que se espera de um conjunto de estrelas como o elencado para a tal apresentação. Tanto que esse encontro é pouquíssimo conhecido, sendo que os próprios Stones só se preocuparam em lançar o CD e o vídeo desse show somente 30 anos depois. Ou seja: uma equipe formada pelos melhores não necessariamente é a melhor equipe.

Tudo isso passou pela minha cabeça neste último sábado, enquanto via pela TV a equipe francesa eliminar a seleção brasileira da Copa do Mundo da Alemanha. Entendo quase nada de futebol, confesso, mas também não precisava ser expert no assunto para ver que, no campo, de nada valeu ter no nosso time o melhor jogador do mundo (de acordo com a FIFA), o maior artilheiro da história das Copas, o jogador que mais atuou em Mundiais, e os demais de um elenco que vale, de acordo com especialistas no assunto, mais de um bilhão de dólares. Parece paradoxal, mas mesmo tendo os melhores jogadores, não tínhamos time.

O trabalho com grupos é um dos expedientes mais queridos e apreciados na psicologia. Para tanto, existem muitos referenciais teóricos para conceber e operar isso que chamamos grupo. Um dos que mais gosto tem por definição que um grupo é um conjunto de pessoas que se propõem uma tarefa, o que constitui a sua finalidade. Repare, por exemplo, que muitas empresas definem claramente sua finalidade e seus objetivos sob o nome de “missão”.

No caso, as necessidades entre os membros são comuns e as pessoas se articulam para alcançar esses objetivos (ainda que nas necessidades comuns existam implicações pessoais). Porém, quando as pessoas do grupo se centram nas suas próprias necessidades individuais, o grupo deixa de existir. Vira um grupamento, uma serialidade: deixa de haver ligação orgânica entre os membros, e portanto, não há compromissos com a história e o destino do conjunto.

Com a seleção brasileira foi assim. Não tinha cara de grupo, e isso fica claro no diagnóstico do torcedor brasileiro: “o time não vestiu a camisa”, “foram lá só por causa do patrocinador”, “entregaram-se, não sabiam o que fazer”. São jeitos de dizer a mesma coisa: o time não entrou em campo, embora os onze jogadores estivessem lá.

É claro que, mesmo num grupo, o tal do “talento individual”, como dizem, faz muita diferença (que o diga o Sr. Zinedine Zidane), mas sem um espírito de equipe não há consagração num esporte como o futebol.

O poeta americano Ralph W. Emerson disse uma vez: “o prêmio por uma coisa bem feita é tê-la feito”. Fica de mensagem para o hexa, quem sabe, em 2010.

(06/07/2006)

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