Achados e perdidos

Um dos programas de TV de que mais gosto é o seriado “Lost”. No ar desde 2004, a série se tornou fenômeno de audiência nos mais de 70 países onde é televisionado. Aqui no Brasil a série está na segunda temporada e pode ser acompanhada no canal pago AXN.
Para quem não conhece “Lost”, trata-se da história de um grupo de sobreviventes de um acidente aéreo perdido numa ilha tropical. Até aqui a história parece tratar dos desafios pela sobrevivência e pela espera de um eventual resgate, mas logo nos primeiros capítulos o espectador percebe que a trama é muito maior e mais complicada. Coisas muito estranhas passam a acontecer, dando a entender que a tal ilha não é uma ilha qualquer. Acho que é só o que dá para contar sem estragar as surpresas para quem não acompanha o programa. A série se desenrola mostrando mais mistérios a cada segredo revelado, o que transforma a história num labirinto cheio de possibilidades e incertezas.
Um ponto forte de “Lost” são os personagens, bastante interessantes e complexos. Cada episódio enfoca um deles, mostrando sua vida na ilha e alguns acontecimentos antes de ir parar nela, através de flashbacks.
Dessa forma, nota-se que muito daquilo que acontece na ilha com os personagens já foi vivido, de alguma forma, antes de eles irem parar lá, numa espécie de repetição dos dramas pessoais de cada um: temos o médico que se sente no dever de cuidar de todo mundo, a ladra que não consegue parar de mentir, o golpista que vive se fazendo ser odiado por todos, o pai que luta para estar próximo do filho, e assim por diante. Todos revivem na ilha os mesmos dilemas, limites, conflitos e fraquezas por que passaram na vida pré-acidente, mesmo agora, num mundo aparentemente tão diferente do lugar de onde partiram. Estranho, não?
É claro que num universo como o de “Lost”, essa suposta coincidência deve ter alguma explicação inerente à própria história, como os outros mistérios da saga. Mas enquanto ela não vem, fica a oportunidade para interpretar essa ficção de outras formas.
No estudo da psicanálise, por exemplo, os acontecimentos que se repetem na experiência subjetiva da pessoa raramente são vistos como frutos do mero acaso, mas como produtos de nossa mente. Diz o provérbio: “errar é humano; insistir no erro é diabólico”. O psicanalista diria que faz parte do humano reincidir nos mesmos erros.
A neurose nossa de cada dia é isso: a escolha repetitiva de um caminho errado que não se consegue evitar. A repetição traz sempre algo do passado pedindo para ser elaborado. Em outras palavras: algo que está errado e que clama por significação, por mudança. Tudo isso num plano inconsciente, semelhante àquelas músicas que grudam na nossa cabeça, aos sonhos que sempre voltam, e aos sintomas que produzimos.
Enfim, existem muitas teorias tentando montar o quebra-cabeças da série, mas uma coisa já parece clara: seja lá qual for a natureza dos mistérios daquela ilha, “Lost” é a história da luta de pessoas enfrentando suas próprias tragédias, tentando evoluir e melhorar nos pontos em que falham ou sofrem. Pelo menos nesse aspecto, todo mundo é mais ou menos parecido com eles. Afinal, quem é que nunca se sentiu perdido, tentando se encontrar?
Para acessar o "Lostpedia" e saber mais sobre a série, clique aqui.
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