27.4.06

Eleições e indecisão


No último fim-de-semana, vários dos meus melhores amigos dos tempos de faculdade estiveram em Araraquara para aproveitar o feriado prolongado. Mesmo depois de graduados, temos conseguido nos reunir de tempos em tempos para matar a saudade e relembrar histórias antigas.

Conversa vai, conversa vem, e em determinado momento começamos a discutir sobre política. Com tantos escândalos, tantas crises, e faltando apenas cinco meses para a eleição, esse assunto realmente é difícil de não dar as caras em qualquer roda de amigos. Mas não foram os escândalos ou a crise política que deram o tom em nosso debate, mas sim um sentimento desolador, um quadro de frustração geral com tudo o que está acontecendo.

Havia os que se colocavam frontalmente contra a continuidade do atual governo, indignados com os indícios de corrupção. Em contrapartida, havia também os que valorizavam o mesmo governo, destacando alguns de seus resultados positivos, seja na economia ou em políticas sociais. Também estavam lá os que se abstiveram do assunto e não assumiram posição clara. Isso, é claro, sem falar nos indecisos.

Em verdade, descobrimos que todos nós, de uma forma ou de outra, nos encontrávamos neste último grupo. Percebemos que por mais divergentes que fossem os discursos, o ponto comum para todos os debatedores era a indecisão: mesmo os que são “fora Lula” não confiam inteiramente na oposição, ao passo que quem é “Lula lá” não sabe ainda ao certo se vai apoiar a reeleição do presidente.

Abstraem-se desse panorama algumas possíveis interpretações. Dentre elas, a de que não há uma percepção clara das diferenças entre blocos políticos (como manda o jargão popular, parecem “farinha do mesmo saco”), a ponto de não se saber mais se é possível crer em alguma mudança verdadeira nas próximas eleições.

As implicações disso são muito sérias. Por exemplo: um jovem procura um orientador profissional por se sentir confuso em relação ao futuro. Angustiado, sofre por não saber em qual das muitas opções de cursos e carreiras deve mirar os seus esforços. Isso é normal, típico de uma identidade vocacional ainda por se desenvolver. Mas por pior que possa ser seu conflito, é importante que ele saiba que é bom que ele tenha, sim, várias opções. Pior seria se ele nem as tivesse, e que fosse obrigado a seguir um caminho já estabelecido. Então, reconhecer e avaliar as opções que temos é a base, e também o primeiro passo, para qualquer escolha em nossa vida.

Nosso caso é diferente: estamos indecisos porque nos faltam opções. E quais são as nossas neste ano? Governo e oposição, não é de hoje, estão muito parecidos: os indícios de corrupção, a política econômica, o jogo político, os projetos de poder etc., tudo soa como continuidade, nos erros e nos acertos. Talvez não seja à toa, então, que a pesquisa de abril do Instituto Sensus, sobre a intenção de voto para presidente, tenha registrado um aumento no número de indecisos, um movimento atípico para o período eleitoral em que estamos.

Não adianta governo e oposição fazerem guerra com discursos diferentes, quando para a maioria da população os pecados dos dois lados são iguais.

(27/04/2006)

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20.4.06

Horóscopo genético



Em sua coluna num grande jornal de São Paulo, o Dr. Drauzio Varella expôs um artigo bastante interessante sobre o genoma humano (seqüenciamento detalhado do patrimônio genético do homem) e a revolução que os estudos cada vez mais avançados nessa área trarão para a medicina num futuro próximo.

De acordo com o texto, dentro de dez anos já existirão os primeiros serviços de mapeamento genético abertos à população para fins terapêuticos. A idéia poderá trazer bons frutos: tendo meu genoma em mãos posso descobrir, por exemplo, se tenho a predisposição a algum problema cardiovascular. Nesse caso, poderia começar desde já a me dedicar a mais atividades físicas, fazer exames preventivos e mexer na minha alimentação a fim de evitar sofrer desse mal no futuro. Imagine quantas vidas esse “horóscopo genético” pode salvar. É mesmo uma idéia tentadora.

O Dr. Drauzio não falou, contudo, sobre os riscos que esse grande avanço da medicina pode oferecer ao nosso estilo de vida e, principalmente, à forma de lidar com a nossa existência.

Explico. Não é de hoje que o homem tenta não só descobrir, como também controlar seu destino. A idéia de um amanhã desconhecido é inquietante mesmo. Talvez por conta dessa ansiedade é que a humanidade tenha se servido de tantos meios para tentar revelar o futuro. No passado, havia a crença em sonhos proféticos e premonições. Com proposta parecida, a astrologia e outras correntes esotéricas trazem a ambição de conhecer o futuro para os dias atuais. Tudo para tentar calar a pergunta: “O que será de mim amanhã?”.

Somos obcecados pelo futuro. Quando o homem aprendeu a conjugar os verbos no tempo futuro, criou-se em sua subjetividade um espaço a ser ocupado pelo vir-a-ser, um compromisso com o que ainda não aconteceu. Repare que somos sempre pautados pelo amanhã: onde estarei daqui a um ano? Que profissão seguir? Terei quantos filhos? Morrerei quando? Viverei feliz?

Claro que pensar no futuro é importante para podermos nos organizar e planejar alguns de nossos passos. Mas quando nos ocupamos demais com o futuro (ou seja, uma “pré-ocupação”), corremos o risco de não vivermos o presente.

O preço disso é alto. Para alguns neurocientistas, por exemplo, a inteligência do homem é o que o deixa estressado. Como somos capazes de conceber o futuro, deixamo-nos ser pressionados não só pelas angústias do que acontece hoje, como também pelas ansiedades do amanhã, do depois de amanhã, e assim por diante.

Recursos como esse exigem reflexão justamente pelas muitas possibilidades que nos apresentam. Mas o que determina se tudo isso será bom ou ruim não são as descobertas, mas a forma como as usaremos em nossas vidas. Saber o que meu DNA me reserva para daqui 40 anos pode me ajudar a adoecer menos, como pode também ajudar a trazer preocupações e angústias que ainda nem tenho.

Precisamos, sim, olhar para o futuro, mas não podemos nos esquecer de sermos contemporâneos de nosso tempo.

* * *

Nota: em “A máquina do tempo”, de H.G. Wells, há uma frase que vale a pena ser citada para fechar este artigo: “Todos nós temos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam para o passado, e se chamam memórias. As que nos levam para o futuro se chamam sonhos”.


(20/04/2006)
Para conferir o site do Dr. Drauzio Varella, clique aqui.

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13.4.06

Sofrimento opcional


Começaram a ser divulgados os levantamentos estatísticos preliminares de uma pesquisa sobre a saúde mental dos brasileiros. Coordenado pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, o estudo pretende fornecer dados a respeito da incidência de transtornos psiquiátricos na população, além do acesso por parte da mesma a tratamentos especializados. Esse é o chamado Estudo Mundial de Saúde Mental Social.

O trabalho é promovido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e conta com a participação de 28 países, dentre os quais o Brasil. Por aqui, foram entrevistadas 3000 pessoas, de 39 municípios da região metropolitana de São Paulo. Outras 2500 ainda serão ouvidas, e dentro de um ano o relatório final com os dados brasileiros estará completo.

Mas já temos os primeiros números, e eles começam a chamar a atenção. Segundo os especialistas coordenadores da pesquisa, a estimativa é de que um em cada dez moradores da Grande São Paulo precisa de algum tipo de tratamento especializado na área de saúde mental, como terapia e/ou medicamentos.

Outro dado importante: dos entrevistados, 40% apresentam ou já apresentaram algum tipo de transtorno psiquiátrico. Aqui vale a ressalva de que esse número, bastante expressivo, leva em conta toda e qualquer forma de transtorno, dos casos mais brandos aos mais severos. Assim, nesse índice, os casos de dependência de nicotina, por exemplo, dividem espaço com os de depressão e ansiedade, cada vez mais freqüentes.

Os números são altos e, em resumo, mostram que os problemas de saúde mental são bastante comuns e que com freqüência geram a necessidade de acompanhamento profissional. Porém, alguém poderá lembrar que ainda assim os serviços de saúde mental e os profissionais dessa área não gozam de grande reconhecimento na população geral.

Aqui algumas interpretações são possíveis. Uma delas, por exemplo, diz respeito ao velho preconceito, ainda presente em grande parte da população, em relação aos tratamentos psiquiátricos e psicológicos.

Essa história é velha. Ainda sob o estigma de serem do ramo da “loucura” (termo obsoleto e obscuro, em desuso há muitas décadas), e enfrentando uma cultura onipotente que só reconhece o sofrimento psíquico como expressão de fraqueza (ou mesmo de “frescura”), psiquiatras, psicanalistas e psicólogos muitas vezes deixam de ser procurados, justamente em casos em que sua ajuda teria papel fundamental.

Em geral, esse tipo de preconceito serve a uma forma de resistência, uma defesa contra o medo de ter que encarar justamente aquelas fraquezas e loucuras. Como se quebra um preconceito desses, eu não sei. Einstein achava mais fácil desintegrar um átomo (provavelmente com razão). Mas pode ser que algo novo esteja por acontecer: pesquisas como essa podem ajudar a desmistificar os transtornos psiquiátricos, mostrando que esses casos não são raros, que não se trata de coisa de doido, e que não há motivo para se envergonhar de querer ser tratado.

Quem é mais fraco, ou mesmo mais “louco”: quem sofre e não faz nada, ou quem aceita pedir ajuda para enfrentar seus males? É como disse Drummond: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.

(13/04/2006)
Para acessar a matéria sobre a pesquisa, clique aqui.

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6.4.06

Ora, ora... orar piora?


E eis que está lançado mais um capítulo da interminável e fustigante novela dos embates entre ciência e religião. A edição desta semana do American Heart Journal, um periódico americano de artigos científicos da área de cardiologia, traz o estudo mais amplo e rigoroso já feito sobre os efeitos das orações na recuperação e no tratamento de enfermos (no caso, pacientes cardíacos).

Ao longo de 10 anos um grupo de médicos dividiu em três grupos 1800 pacientes cardíacos que se submeteram à cirurgia de ponte de safena. Dois desses grupos receberam orações de religiosos pela sua recuperação. Em um desses grupos os doentes sabiam que participavam das intenções de tais rezas; no outro, não.

Os resultados, embora não conclusivos, sugerem que orações alheias não ajudam os pacientes. Comparando os números de complicações e problemas pós-cirurgia dos grupos que receberam orações com os do grupo que não recebeu, os cientistas constataram que não havia diferença na incidência de tais ocorrências. Ou seja, rezar não teria ajudado ninguém a se recuperar.

Outro dado: a incidência das complicações entre os que sabiam das orações era de 59%, contra 51% dos que não sabiam. Segundo a pesquisa, além de não ajudar, as orações poderiam ter atrapalhado na recuperação, já que alguns pacientes poderiam se sentir pressionados pelas preces.

A polêmica que o estudo causa é só um sinal do desgaste que ocorre quando uma verdade tenta se sobrepor a outra. Esse parece ser o caso desta pesquisa, que, com critérios científicos, se põe a abordar uma prática religiosa, intangível por tais métodos. Não é o primeiro dualismo entre a ciência e o que transcende a razão.

Um exemplo: com o conhecimento que temos hoje, não é possível deixar de notar o fato de que todo humor e toda emoção humana decorre, antes de tudo, de alterações químicas do cérebro. Se fico triste ou feliz, é porque fenômenos químicos propiciam esse estado. Isso é biológico, natural. Mas não é tudo. Produzir tais emoções e vivê-las são histórias bem diferentes.

A ciência fala de verdades, traduz o mundo como ele é. O problema é que não é só nesse mundo que o homem vive. Imagine um rapaz declarando seu amor por uma moça com verdades científicas. Poderia ser assim: “Fulana, quando te vejo, as fendas sinápticas em meu cérebro se enchem de dopamina e serotonina, de modo que sinto prazer em sua presença”. Não dá. Um mundo feito só desse tipo de verdade cansaria: diante de uma piada as pessoas buscariam verossimilhança, não o riso; e diante de uma poesia não conseguiriam passar pela primeira metáfora sem questionar o texto. Nossos conceitos nos ajudam no dia-a-dia, mas não dão conta de compreendermos nossa existência. Somos de carne e osso, sim, mas também somos feitos de arte, sonhos e desejos. A experiência humana é diversa e pede mais de um jeito de ver o mundo.

Freud mostrou que uma das razões de rezarmos e adorarmos alguma divindade é a necessidade de nos sentirmos confortados, menos desamparados diante da dor. Uma prece é então o simples desejo de que tudo fique bem, e isto basta. Fé não pede resultados, e isso aqueles cientistas deveriam saber.

(06/04/2006)

* * *

Pequeno apêndice para os leitores do blog:

De vez em quando
Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos,
não é a bola bonita caminhando solta no espaço.

(Paixão, de Adélia Prado)

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