Eleições e indecisão

Conversa vai, conversa vem, e em determinado momento começamos a discutir sobre política. Com tantos escândalos, tantas crises, e faltando apenas cinco meses para a eleição, esse assunto realmente é difícil de não dar as caras em qualquer roda de amigos. Mas não foram os escândalos ou a crise política que deram o tom em nosso debate, mas sim um sentimento desolador, um quadro de frustração geral com tudo o que está acontecendo.
Havia os que se colocavam frontalmente contra a continuidade do atual governo, indignados com os indícios de corrupção. Em contrapartida, havia também os que valorizavam o mesmo governo, destacando alguns de seus resultados positivos, seja na economia ou em políticas sociais. Também estavam lá os que se abstiveram do assunto e não assumiram posição clara. Isso, é claro, sem falar nos indecisos.
Em verdade, descobrimos que todos nós, de uma forma ou de outra, nos encontrávamos neste último grupo. Percebemos que por mais divergentes que fossem os discursos, o ponto comum para todos os debatedores era a indecisão: mesmo os que são “fora Lula” não confiam inteiramente na oposição, ao passo que quem é “Lula lá” não sabe ainda ao certo se vai apoiar a reeleição do presidente.
Abstraem-se desse panorama algumas possíveis interpretações. Dentre elas, a de que não há uma percepção clara das diferenças entre blocos políticos (como manda o jargão popular, parecem “farinha do mesmo saco”), a ponto de não se saber mais se é possível crer em alguma mudança verdadeira nas próximas eleições.
As implicações disso são muito sérias. Por exemplo: um jovem procura um orientador profissional por se sentir confuso em relação ao futuro. Angustiado, sofre por não saber em qual das muitas opções de cursos e carreiras deve mirar os seus esforços. Isso é normal, típico de uma identidade vocacional ainda por se desenvolver. Mas por pior que possa ser seu conflito, é importante que ele saiba que é bom que ele tenha, sim, várias opções. Pior seria se ele nem as tivesse, e que fosse obrigado a seguir um caminho já estabelecido. Então, reconhecer e avaliar as opções que temos é a base, e também o primeiro passo, para qualquer escolha em nossa vida.
Nosso caso é diferente: estamos indecisos porque nos faltam opções. E quais são as nossas neste ano? Governo e oposição, não é de hoje, estão muito parecidos: os indícios de corrupção, a política econômica, o jogo político, os projetos de poder etc., tudo soa como continuidade, nos erros e nos acertos. Talvez não seja à toa, então, que a pesquisa de abril do Instituto Sensus, sobre a intenção de voto para presidente, tenha registrado um aumento no número de indecisos, um movimento atípico para o período eleitoral em que estamos.
Não adianta governo e oposição fazerem guerra com discursos diferentes, quando para a maioria da população os pecados dos dois lados são iguais.
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