Novo ano, velho desejo

Quem, como eu, trabalha com psicoterapia ou orientação profissional sabe bem: todo fechamento de ciclo (seja um curso, uma viagem, algum trabalho realizado etc.) abre no indivíduo as comportas para uma enxurrada de perguntas auto-dirigidas que têm como objetivo ajudar a compreender e significar a vivência recém-concluída.
Para organizarmos nossas vidas em ciclos, precisamos achar o final para cada coisa. Sem um final, as coisas ficam abertas, sem sentido. Tomo como exemplo “As mil e uma noites”, uma das mais fantásticas obras da literatura universal. A história conta que o sultão Shahryar, após uma grande decepção amorosa, passa a se casar com uma mulher diferente por dia, matando-a no dia seguinte. Assim o faz até o dia que se casa com Scherazade, que o seduz toda noite com suas histórias inconclusas. As histórias que Scherazade contava não tinham fim até o dia seguinte, o que deixava o sultão desesperado e o forçava a adiar constantemente sua execução. Afinal, sem um final próprio, que história se mantém? Com o ano é a mesma coisa.
Precisamos da idéia de fim para aceitarmos os recomeços. O fim do ano é algo tocante para nós não só pelo ano novo que começa, mas pelo ano que finda. Os anos são pretexto para marcar nossa existência ao longo do tempo. Essa é a única forma que temos para entender nossa história: olhando para trás e analisando as pegadas deixadas ao longo do caminho. Rever nosso passado nos dá mais chance de saber quem nós somos do que a imaginação que usamos para vislumbrar o futuro.
E como um ciclo se fecha, outro se abre. A idéia de reinício e renovação que todo mundo sente no 1º segundo do 1º de janeiro garante a manutenção de sonhos e esperanças de que o próximo ano será melhor. É como se por tudo o que deu errado no ano velho nos fosse dada uma segunda chance. Aí é que mora a graça da fantasia do Reveillon, e também a força e a beleza de nossa perseverança.
O problema das fantasias é que elas se quebram fácil quando em contato com a realidade. E é sempre assim: o ano começa com lindos votos de felicidade, e lá pra fevereiro já está tudo igual de novo. De repente, a paz e a alegria, tão freqüentes nos votos para o ano novo, não vêm. Daí a pergunta: por que todo ano é assim, sempre igual? Para a psicanálise, geralmente as repetições possuem alguma intenção, algum sentido que tenta levar a um novo entendimento. Talvez, no caso, somos nós tentando entender que esperar pelo Ano Novo e desejar um Ano Novo são coisas bem diferentes.
Boa sorte a todos em 2006! Que o Ano seja Novo de verdade.






