As dores do conhecimento

Porém muitas dessas perguntas que fizemos um dia, de certo modo, continuam atuais por toda a vida. Remontar nossas origens pelos nossos pais e avós parece não bastar. Para o homem, conhecer sua origem enquanto espécie sempre foi um desafio e, mais do que isso, talvez até uma necessidade.
Nos últimos anos tem crescido cada vez mais os atritos entre os defensores do criacionismo (tese baseada na Bíblia de que a vida e o Universo são resultados da intervenção divina) e os estudiosos do evolucionismo (teoria do biólogo britânico Charles Darwin que propõe que as espécies evoluem ao longo das gerações por equilíbrio e adaptação, sem intenções de qualquer ordem superior). A discussão já tomou os trâmites políticos em alguns estados norte-americanos, como o Kansas, que já ganhou o direito de ensinar o criacionismo nas aulas de ciências em suas escolas públicas. No Brasil a polêmica se faz presente no Rio de Janeiro, onde o governo fluminense ampara o ensino religioso com as bases do criacionismo na rede estadual. Nesses dois casos, a comunidade científica protestou contra a medida com veemência, mas sem muito sucesso.
Todo esse debate esconde uma velha conhecida ferida narcísica da humanidade, que essa disputa entre religiosos e cientistas só tende a atualizar. Explico: o homem já tomou três grandes tombos de seu salto alto. O primeiro deles ocorreu no século XV, com a teoria heliocêntrica do matemático e astrônomo Nicolau Copérnico. Antes dele, era entendido que o Sol é que girava em torno da Terra. Depois, no século XIX, é a vez de Charles Darwin balançar o sistema vigente propondo a teoria da evolução pela seleção natural, que retira do homem o lugar privilegiado dentre as espécies, pareando-o com os animais. O terceiro abalo vem pelas mãos de Sigmund Freud, psicanalista, que com sua teoria do inconsciente descobre que nem os próprios desejos, ações e pensamentos o homem consegue comandar por completo. São mudanças no perfil da forma como nos conhecemos: primeiro é a Terra que é retirada do centro, depois a espécie humana e por fim o consciente.
Tudo o que é novo ou desconhecido tem o poder de causar, em alguma medida, certas doses de medo. O conhecimento assusta pelo que apresenta de novidade e pelo que pode mudar. Não foi à toa que esses três abalos no ego do homem tenham sido causados pelas descobertas no ramo científico.
De certa forma o retorno à luta contra essas feridas narcísicas nos remete às fantasias de abandono, comum a todos. É realmente mais acalentador pensar que nossas histórias, nossas vidas e nossa trajetória enquanto espécie sejam revestidas de alguma vontade divina do que conviver com um certo acaso proposto pelas teorias científicas. No fundo somos nós, humanos, caminhando pelas dores do saber e pela angústia do não-saber.
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