30.11.05

As dores do conhecimento


Não demora muito para uma criança começar a inquirir seus pais a respeito de suas origens. “De onde eu venho?”, “eu sou mesmo filho de vocês?”, “como eu fiz para nascer?”. Essas e outras perguntas são muito pertinentes ao momento de intensa descoberta do mundo que é a infância, já que o próprio “eu” da criança e também seu mundo interno são objetos a serem explorados.

Porém muitas dessas perguntas que fizemos um dia, de certo modo, continuam atuais por toda a vida. Remontar nossas origens pelos nossos pais e avós parece não bastar. Para o homem, conhecer sua origem enquanto espécie sempre foi um desafio e, mais do que isso, talvez até uma necessidade.

Nos últimos anos tem crescido cada vez mais os atritos entre os defensores do criacionismo (tese baseada na Bíblia de que a vida e o Universo são resultados da intervenção divina) e os estudiosos do evolucionismo (teoria do biólogo britânico Charles Darwin que propõe que as espécies evoluem ao longo das gerações por equilíbrio e adaptação, sem intenções de qualquer ordem superior). A discussão já tomou os trâmites políticos em alguns estados norte-americanos, como o Kansas, que já ganhou o direito de ensinar o criacionismo nas aulas de ciências em suas escolas públicas. No Brasil a polêmica se faz presente no Rio de Janeiro, onde o governo fluminense ampara o ensino religioso com as bases do criacionismo na rede estadual. Nesses dois casos, a comunidade científica protestou contra a medida com veemência, mas sem muito sucesso.

Todo esse debate esconde uma velha conhecida ferida narcísica da humanidade, que essa disputa entre religiosos e cientistas só tende a atualizar. Explico: o homem já tomou três grandes tombos de seu salto alto. O primeiro deles ocorreu no século XV, com a teoria heliocêntrica do matemático e astrônomo Nicolau Copérnico. Antes dele, era entendido que o Sol é que girava em torno da Terra. Depois, no século XIX, é a vez de Charles Darwin balançar o sistema vigente propondo a teoria da evolução pela seleção natural, que retira do homem o lugar privilegiado dentre as espécies, pareando-o com os animais. O terceiro abalo vem pelas mãos de Sigmund Freud, psicanalista, que com sua teoria do inconsciente descobre que nem os próprios desejos, ações e pensamentos o homem consegue comandar por completo. São mudanças no perfil da forma como nos conhecemos: primeiro é a Terra que é retirada do centro, depois a espécie humana e por fim o consciente.

Tudo o que é novo ou desconhecido tem o poder de causar, em alguma medida, certas doses de medo. O conhecimento assusta pelo que apresenta de novidade e pelo que pode mudar. Não foi à toa que esses três abalos no ego do homem tenham sido causados pelas descobertas no ramo científico.

De certa forma o retorno à luta contra essas feridas narcísicas nos remete às fantasias de abandono, comum a todos. É realmente mais acalentador pensar que nossas histórias, nossas vidas e nossa trajetória enquanto espécie sejam revestidas de alguma vontade divina do que conviver com um certo acaso proposto pelas teorias científicas. No fundo somos nós, humanos, caminhando pelas dores do saber e pela angústia do não-saber.

(17/11/2005)

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28.11.05

A culpa no país das CPIs

A atual crise política por que passa o país tem levantado um mar de denúncias e suspeitas que tem mexido com os ânimos e a fé dos brasileiros. Não só o governo, mas toda a classe política se vê atingida por lama e sujeira que as investigações têm encontrado debaixo dos tapetes da nossa República.

Desde a eclosão da crise, contam-se já 6 meses. De lá para cá, 3 CPIs foram instaladas no Congresso, 5 deputados renunciaram a seus mandatos (inclusive o então presidente da Câmara dos Deputados), 1 deputado foi cassado (por enquanto), vários dirigentes de partidos políticos caíram, alguns funcionários de estatais foram exonerados, centenas de horas de depoimentos foram ouvidas, e até em impeachment já se falou.

Ainda assim, a sensação de impunidade e injustiça continua incomodando a população, que não engole qualquer pizza. O problema é que com tanto escândalo e “denuncismo”, ficou fácil cair na velha crença de que todo político é corrupto. O risco disso é errar o alvo, combatendo a política em vez da corrupção, essa velha conhecida armadilha de quebrar leis.

O homem, enquanto ser social, precisou se valer de normas e regras para sobreviver e conviver com seus semelhantes. Assim surgiram as leis. A instituição “lei” é um dos representantes na nossa vida cotidiana de dispositivos mentais que servem para dar limites a desejos e impulsos (tal dispositivo, em psicanálise, chama-se superego). Explico: se em um segundo de sandice tenho o desejo de matar alguém, e se tudo correr bem, minha mente consegue reprimir e conter esses impulsos nocivos ao outro. Nossas leis fazem o mesmo, mas num plano concreto, social, ao impor punições ao transgressor. Ou seja, em última instância, respeitar a lei é respeitar o outro.

Assim, para saber se estamos prontos a combater a corrupção, teremos que olhar para nossa própria capacidade (ou incapacidade) de cumprir nossas leis. Pouco adianta atacar as maracutaias dos centros do poder e ignorar as transgressões praticadas e toleradas no nosso dia-a-dia. Falo aqui daquelas infrações ditas “pequenas”, cometidas por anônimos que nunca aparecem no jornal ao lado dos Delúbios da vida: o profissional liberal que vende recibo, o alto funcionário que pratica o popular “QI”, o sujeito que compra produtos piratas, o empresário que sonega, o indivíduo que faz contrabando etc. Minha intenção não é atenuar a gravidade dos supostos esquemas de corrupção de nossas lideranças, mas sim ressaltar as semelhanças entre a política sem ética e essas práticas ilícitas mais silenciosas mas não menos perigosas. No fundo, elas têm a mesma origem.

Parte da população enfrenta a crise pedindo as cabeças dos políticos provavelmente para aliviar a culpa, negando o dano dessas “pequenas” transgressões e exaltando uma questionável retidão moral. Acho que o Brasil ganha pouco com isso. Talvez seja mais produtivo se soubermos aprender com nossos erros, encarando-os, para sairmos dessa crise melhores, transformados.

No fim, sobre o combate à corrupção, fica aquela velha pergunta: o exemplo deve vir de cima ou de baixo? Não importa: alguém tem que começar.

(publicado originalmente em 10/11/2005)

26.11.05

Mortos e finados

Dia desses, enquanto passava diante de um dos maiores cemitérios de Araraquara, chamou minha atenção a quantidade de vendedores de flores já preparados para o feriado desta quarta-feira. Aliás, não só lá: o comércio em geral, todo florido, está à disposição dos que vão aproveitar o dia de folga para ir ao cemitério fazer as honras do dia de finados.

A data é católica, mas independente disso, parece ser uma das raras ocasiões em que todos somos chamados a refletir sobre a morte. Afinal, o dia é para lembrar aqueles que já partiram, o que invariavelmente acaba nos lembrando de que o mesmo acontecerá conosco. Para essa reflexão, ciência, filosofia e religião podem amparar diferentes pontos de vista, tentativas para apaziguar a angústia de saber que somos finitos e, portanto, limitados. Assunto cabeludo! Prova do quanto ele incomoda são aquelas conversas em que a palavra morte nem pode ser pronunciada.

Passamos boa parte de nossas vidas brigando com a morte, imaginando-a como um elemento negativo, do mal, uma inimiga implacável. Atribuímos a ela a função de nos tirar a vida, mas nos esquecemos do quanto ela, por outro lado, nos dá. Por exemplo: Jacques Lacan, renomado psicanalista francês, certa vez disse que não toleraríamos a vida sem a certeza de que uma hora ou outra ela vai acabar. Paradoxalmente, a morte nos dá tempo, e não nos tira, já que para uma vida imortal o tempo não faz sentido algum. Além disso, a compreensão e a consciência de que vamos todos morrer nos previne de banalizar nossa existência. Ora, quer melhor razão para aproveitar uma boa festa além do fato de que uma hora ela irá acabar?

O Dr. Drauzio Varella lançou em 2004 “Por um fio” (Companhia das Letras), excelente livro em que relata algumas de suas experiências com a morte, tanto em sua vida pessoal como profissional. A primeira frase desta obra é arrebatadora: “morte é a ausência definitiva”. Talvez não seja sempre assim, necessariamente. Finado, ao que manda um bom dicionário, é aquele que finou, que encontrou seu fim. Mas boa parte dos que já se foram ainda vive, num certo sentido, dentro daqueles que ficaram. Basta reparar, neste dia de finados, num cemitério cheio de visitantes para entender que, para nossa mente, as relações humanas e nossos afetos não se dão unicamente pelas vias concretas. Mesmo quando perdemos o objeto de nosso amor, nossos afetos não vão embora; eles persistem, ainda que transformados. Em alguns casos, dependendo das circunstâncias, pode ser o começo de muito sofrimento ou mesmo de alguma psicopatologia. Mas quando esses afetos podem virar saudade ou rememorações, vê-se uma nova forma de lidar com a perda (e com as novas "presenças" que dela se originam).

“Para estar junto não é preciso estar perto, mas do lado de dentro”, disse Leonardo da Vinci. Nada como um feriado desse, em que as pessoas demonstram que mesmo aqueles que já se foram continuam queridos, para provar a validade dessa proposição.

* * *

Em tempo: vale a pena conferir “O jardineiro fiel”, o mais recente trabalho do diretor Fernando Meirelles. O filme não trata especificamente de morte, mas mostra o envolvimento de um casal que sobrevive a ela.

(02/11/2005)

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23.11.05

As "bolas foras" da violência no futebol


Recentemente voltamos a testemunhar brigas e mortes inúteis entre membros de torcidas rivais no acalorado e cada vez mais tenso Campeonato Brasileiro de 2005. Foi assim o cenário do final de semana retrasado: um palmeirense e um corinthiano mortos a tiros em conflitos entre suas torcidas, e um pontepretano que não sobreviveu às pancadas desferidas por torcedores do São Paulo.

Notícias como essa chamam a atenção para a perda do sentido original de competitividade e rivalidade de nossas torcidas. É muito comum associarmos a qualquer conflito algum valor negativo, caracterizando-o como algo danoso ou contraproducente em qualquer relação. Não é bem assim. Conflitos podem criar e transformar. Exemplo: um casal que nunca briga provavelmente deixa de resolver muitos de seus problemas, ocultando suas diferenças. A prática clínica de psicoterapeutas atesta, inclusive, para o fato de que momentos de crises podem abrir brechas para oportunidades de crescimento pessoal. Ora, se o conflito também possui sua porção criativa, por que a rivalidade entre as torcidas tem conseguido trazer tanta violência e morte para nosso futebol?

Existe um livro mundialmente famoso e popular chamado “A arte da guerra”, escrito por um filósofo e general chinês chamado Sun Tzu, que viveu no século IV a.C. Essa obra, traduzida para inúmeras línguas, trata de estratégias militares. Seus ensinamentos (sempre atuais, já que dizem respeito a conflitos humanos e guerras) são usados até hoje, inclusive no mundo dos negócios. Talvez sua fama decorra da proeza de humanizar o assunto ao propor que a habilidade primordial para vencer um adversário seja a sabedoria, e não a força. “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”, diz Tzu. Esse princípio influenciou até as tradições dos antigos samurais, que respeitavam seus inimigos por reconhecer no combate uma forma de sabedoria.

Vem-me agora à lembrança um episódio de uma das diversas versões em desenho animado para as histórias de Peter Pan, a que assisti há anos. Nesse capítulo, o Capitão Gancho consegue finalmente vencer um duelo contra Peter Pan, mas na hora de abatê-lo não consegue. Ao contrário: deixa-o partir. Explica então que sem Peter Pan em seu caminho, sua vida perderia a graça. Trocando em miúdos, respeitar o adversário e honrar o duelo que se estabelece com ele é tão positivo quanto à vitória que se busca.

Nossa dita modernidade teve o poder de realçar uma atitude narcisista e apelativa nas competições, e o resultado são essas mortes fúteis. “Mato meu oponente porque a vitória cabe a mim”, ou pior: “só a morte cabe para quem se opõe a mim”. Pena. É justamente no sabor de uma boa rivalidade entre as equipes que as conversas e debates sobre futebol têm graça. Se não houvesse essa disputa, não haveria também rojões estourando após uma goleada. O problema é que o conflito deixou de ser simbólico, e virou motivo de guerrilhas. Tivessem enxergado que a partida era só um jogo, esses jovens poderiam se atacar só com piadas e provocações.

(publicado originalmente em 27/10/2005)

Pelo sim ou pelo não


Neste domingo, dia 23, os eleitores brasileiros irão às urnas para dizer se são favoráveis ou contrários à proibição do comércio de armas de fogo e munição no país. Muito tem sido discutido sobre as duas correntes que se enfrentam para definir a questão e pensar no que pode ser melhor para o Brasil. Proibir ou não proibir? É uma questão de controle ou de direitos? Quem ganha é a população ou o crime? Não há como saber agora.

O homem sempre se armou. Desde a primeira pedra lascada que serviu de instrumento de caça para nossos ancestrais, até as mais modernas bombas de destruição em massa, a humanidade sempre se serviu de ferramentas que a ajudassem a concretizar sua agressividade. Tal agressividade é inerente ao homem, e essencial para sua sobrevivência. Ambígua, pode servir tanto à vida (para proteção) quanto à morte (como perversão). É esse lado agressor do homem que produz armas, nem que estas venham sob a forma de um simples xingamento. Somos produtores de armas.

Por outro lado, teorias e técnicas do estudo do psiquismo nos mostram que todos temos, em alguma medida, uma porção assassina. Mesmo o mais pacífico dos sujeitos tem seu lado mortífero, nem que fique enjaulado nos recônditos de sua mente. Alguns crimes passionais ocorrem quando essa jaula se quebra. Enfim, armas são perigosas, mas nós também somos. Acho que esse é um dos pontos da polêmica.

Vejo que a sociedade tem dado bastante atenção ao referendo deste domingo. O tema passa por rodas de amigos e por notas na mídia diariamente. Ora, quando um assunto é muito requisitado e se torna recorrente, é sinal de que o mesmo é vivido de modo angustiante ou conflitante pelas pessoas. As pesquisas de opinião que apontam um relativo equilíbrio entre as intenções de voto para o Sim e para o Não também confirmam a polêmica em torno da questão.

A briga entre defensores do Sim e do Não está pegando fogo. Já houve troca de farpas no horário de propaganda gratuita na TV, sites e fóruns da Internet chegam a ser apelativos, e até o debate entre velhos amigos parece acirrado. Isso acontece muito na época de eleições. Muitos dos que nem sequer acompanham os trâmites políticos se tornam árduos puxadores de voto, talvez para compensar o peso de nossa culpa cívica de só sermos politizados quando chamados a votar.

É tempo de pensar para escolher, mas esse exercício corre o risco de ser inócuo se nossos esforços cessarem depois das 17h do domingo, quando as urnas já tiverem sido lacradas. Pode ser muito mais vantajoso se nós, brasileiros, pensarmos além do Sim e do Não, e dermos atenção àquilo que podemos fazer para combater a criminalidade e a violência depois do nosso voto. Para vencer esse desafio a conjuntura é muito maior, exigindo mudanças mais profundas, para além do desarmamento, como a diminuição da desigualdade social, a geração de emprego e renda, melhorias na educação, o fortalecimento das polícias, a agilização da justiça etc. São mudanças pelas quais a população espera há muito tempo, e que é uma luta de todos. Pena que para aprovar isso tudo não fazem nenhum referendo.

(publicado originalmente em 20/10/2005)

22.11.05

Por um dia das crianças crescidas


Esta é a semana da criança. Muitos adultos devem ter passado parte de seu tempo procurando presentes para filhos, netos e sobrinhos. Certamente muitos eventos devem ter sido realizados especialmente para a ocasião, como festas, passeios e reuniões de família. O dia das crianças é um dos mais raros pontos de encontro de dois mundos que nossa cultura coloca cada vez mais distantes entre si: a infância e a vida adulta.

O mundo dito adulto, moderno, cobra uma certa distância da infância. Ao adulto confere responder à demanda por responsabilidade e trabalho. À criança cabe se ligar ao prazer e à brincadeira. Ao adulto um ideal de independência; à criança um ideal de felicidade. Ora, tudo o que é idealizado demais uma hora ou outra acaba frustrando, e nesses dois casos não haveria de ser diferente. Em algum ponto de nossa história essa separação do infantil e do adulto acabou forçando um entendimento do pueril e do maduro como caminhos que cada vez menos tendem a se cruzar, o que é uma pena.

O poeta William Wordsworth, expoente do movimento literário romântico na Inglaterra, é autor da célebre frase “The Child is the father of the Man”, traduzida para o português como “o menino é o pai do homem”. Note-se que a tradução tendeu para uma certa postura sexista, já que poderia ter sido “a criança é o pai do homem”. Edições brasileiras à parte, o que gostaria de destacar aqui é a profunda relevância dos dizeres do poeta em relação aos fundamentos que regem a noção de desenvolvimento dentro de um enfoque psicanalítico.

Muito do que somos hoje deriva daquilo pelo que passamos um dia. A psicanálise e sua prática clínica nos mostram que na caixa preta da nossa mente existem registros de turbulências e percalços que marcam nossa história e que nos levam a elaborar certas rotas para nossas vidas. Refiro-me a traumas antigos, fantasias e sonhos infantis, vivências com figuras parentais etc. Ou seja, a infância não é uma apenas uma etapa de nossa vida, mas também um elemento constitucional do que somos hoje. Ela é, assim, um elemento vivo e presente, mesmo para aqueles que já têm várias décadas de vida na bagagem.

Recomendo como uma boa alegoria para ilustrar esta proposição o filme “Duas vidas”, de 2000, estrelado por Bruce Willis. Nessa produção da Disney, um homem ranzinza no alto dos seus 40 anos recebe a visita de um garoto que, mais tarde, descobrirá ser ele mesmo, só que criança. Revisitando o menino que ele foi um dia, o personagem de Willis pode rever quem ele veio a se tornar depois, no futuro.

Não há adulto que exista hoje sem que haja dentro dele uma criança. No caso, é uma “criança interna” que também demanda amor, atenção e, quem sabe, até alguns mimos. Talvez seja este o desafio: permitir-se crescer e amadurecer sem precisar calar essa criança, cujos choros são ecos de um passado não tão remoto. Para isso acho que as crianças têm muito a nos ensinar.

Espero que todos tenham tido um feliz dia das crianças, inclusive os mais crescidos.

(12/10/2005)

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21.11.05

2 filhos de Francisco e outros heróis


Assisti recentemente à produção nacional “2 filhos de Francisco”, de Breno Silveira, sobre o passado da dupla sertaneja Zezé Di Carmargo e Luciano. Devo confessar que não tenho muita simpatia por cinebiografias, talvez por preferir as altas doses de fantasia e ficção que o cinema na maioria das vezes proporciona. Também não sou apreciador de música sertaneja, mas ainda assim, por indicação de conhecidos, fui conferir.

Como leigo que sou, não seria prudente transformar este artigo numa crítica de cinema, ressaltando as qualidades do filme. Mas, em compensação, posso falar dos efeitos que a trama narrada teve em mim. Enquanto espectador, senti-me bastante tocado com a história. E pelo que pude notar, pelos choros e cantorias das pessoas à minha volta, não fui o único a se emocionar. Saí do cinema surpreso pelo efeito que a história me causou, já que eu, com meu preconceito, esperava pouco.

Que há então, em “2 filhos de Francisco”, que consegue fazer uma sala de exibição lotada não só chorar, mas cantar o clássico brega-sertanejo “É o amor” com o protagonista? Claro, há os atrativos de ser uma produção cara e bem arranjada, com atores competentes etc. Também deve-se considerar que é a trajetória de uma das duplas sertanejas mais populares do Brasil, o que deve atrair muitos fãs. Mas acredito que há algo além, e talvez mais forte por estar mais profundamente arraigado na mente das pessoas, que é o mito do herói.

Os mitos, independentemente do contexto cultural em que se originam, são formas de organizar conhecimentos a respeito daquilo que toca ou diz respeito, de uma maneira ou de outra, a todos nós. O mito do herói é amplo, diversificado, e geralmente aborda algum desafio sobre-humano, alguma conquista e o triunfo de certas virtudes. Hércules talvez seja um dos exemplos mais conhecidos: recebeu 12 perigosos trabalhos e saiu vitorioso, salvando povos oprimidos de monstros e bestas. No nosso tempo, o herói ganhou outros contornos, mas ele continua a nossa volta, agora com máscaras, capas e cintos de utilidades.

Isso no mundo da fantasia. No mundo real é diferente. Nosso mundo moderno, individualista, tem sofrido uma falta generalizada de heróis. Tornou-se difícil confiar nossa salvação a alguém. E os heróis também mudaram. Eles deixaram de ser aqueles que nos salvam de perigos, e passaram a ser os que nos salvam da desesperança nos trazendo histórias de superação, assim como a de Zezé Di Camargo e sua família, contada no filme de Silveira. A marca do herói brasileiro é a superação das adversidades. Basta ver a trajetória dos Ronaldinhos, Chicos e Zezés por aí.

Num Brasil cheio de dificuldades e crises, talvez o verdadeiro herói não seja aquele que salva (já que até mesmo os líderes em que confiamos parecem ter falhado nessa messiânica missão), mas aquele que simplesmente traz esperança, tão difícil de encontrar. Parece ser isso o que falta para lembrarmos que nós também podemos ser heróis. Inclusive de nós mesmos.

(20/10/2005)

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17.11.05

Hiroshima e Nagazaki, 60 anos


Quando digo às pessoas que meu avô nasceu em Hiroshima, elas rapidamente associam sua vinda ao Brasil à II Guerra Mundial e ao ataque nuclear sofrido em 1945. No entanto foi em 1931 que ele veio para cá com sua família, bem antes sequer de deflagrarem o conflito. Cresci sabendo disso, aliviado por acreditar que ele não teria vivido a Guerra e a destruição que ela causou. Hoje, 60 anos depois, com a comunidade internacional relembrando as bombas disparadas contra Hiroshima e Nagazaki, já não tenho mais certeza disso. Há algo em torno desse episódio que vai além das tristes lembranças desses ataques, e que é mais atual e presente do que gostaríamos de admitir: a guerra. Ou melhor, nosso “apreço” pela guerra.

Entender a guerra não é fácil. Compreender por que os homens ainda fazem guerra, menos ainda. Prova disso é a carta que Albert Einstein (físico, pai da teoria da relatividade) redigiu a Sigmund Freud (médico, pai da teoria psicanalítica) em 1932 pedindo sua colaboração para entender as razões que levam os homens e os povos a guerrearem, num colóquio de idéias patrocinado pela extinta Liga das Nações. Em sua resposta, Freud discorre sobre o potencial humano ligado à morte, que seria constitucional, inerente a sua natureza. Vida e morte habitam nossa mente sob a forma de instintos que se opõem, mas não se excluem. Exemplo: para responder a um instinto de vida da espécie, como seria a da proteção da prole, um pai de família pode se valer de recursos destrutivos, como o porte de arma. Ou seja, a agressividade tem papel fundamental para nossa existência, e não é necessariamente “má” como muitos a vêem.

Freud deixa claro que tal agressividade, mesmo voltada para a morte, não corrompe a vida. Isso ocorre quando nossa conduta destrutiva se norteia pelo aniquilamento como solução dos conflitos. Assim nasceu a bomba atômica: um instrumento de destruição em massa, utilizado na II Guerra Mundial como forma de derrubar o Japão, à época o único país do Eixo que ainda não havia assinado sua rendição.

A bomba atômica foi o artifício bélico mais poderoso já utilizado na História. Para a feitura daquelas que foram usadas contra o Japão, os EUA investiram 2 bilhões de dólares (valor não corrigido), e se valeu do trabalho de mais de 600.000 pessoas (a título de comparação, a pirâmide de Gizé, segundo Heródoto, requereu o trabalho de 100.000 homens). Seu poder de destruição equivale a vinte mil toneladas de TNT. Embora os alvos fossem de relevância militar, a destruição afetou principalmente civis, matando mais de 210.000 pessoas (e este número é revisto a cada ano) nas duas cidades. Seria como varrer do mapa, de uma vez só, a população atual de Araraquara e Américo Brasiliense. Tudo isso sem falar nas vítimas da radiação, nos danos psicológicos e na perda material dos sobreviventes.

Lembro de uma aula de História em que um professor afirmava que nada traz tantos avanços científicos e tecnológicos quanto uma guerra. Acredito, e acho mais: isso se apresenta como uma verdadeira demonstração da capacidade que temos de crescer em momentos de crise. Para o bem ou para o mal, a guerra trouxe avanços nos transportes, nas comunicações, na medicina, na informática etc. No caso em questão, a ciência e a tecnologia aplicadas na construção da bomba atômica impulsionaram a pesquisa e o uso da energia nuclear. Mas o legado da bomba não foi só esse. Foi a primeira vez que a humanidade se viu diante de algo tão letal que a fez perceber ser possível se auto-destruir. Eis o verdadeiro terror: vivemos esse dia hoje. Não à toa algumas nações se mostram envolvidas com um jogo político pela destruição das armas nucleares existentes. Hoje temos capacidade para destruir nosso planeta 70 vezes, o que, aliás, não passa de uma matemática bizarra, já que uma vez só seria suficiente.

Eis o fardo que carregamos e a loucura que criamos, e que mesmo 60 anos depois da infâmia das bombas sobre Hiroshima e Nagazaki permanecem incólumes. Em algum ponto de nossa trajetória fomos capazes de perverter nossos instintos agressivos, dando-nos a capacidade e o poder de varrer nossa própria existência. De quebra, pervertemos também a ciência, que pela primeira vez figurou como item de um arsenal de guerra.

Dizem que na guerra não há vencedores, e como pacifistas que procuramos ser, acreditamos nisso. O risco é de um dia não haver sequer sobreviventes.
(publicado originalmente em 10/08/2005)

O lado negro que não é da Força


Na quinta-feira desta semana chega aos cinemas do Brasil e do mundo o terceiro episódio (pela ordem cronológica, e não de produção) da cinessérie Star Wars, intitulado “A vingança dos Sith”. Para quem não acompanha a saga, vale dizer que os filmes de Guerra nas Estrelas perfazem duas trilogias. A trilogia original mostra uma galáxia dominada por um grande e maligno império, em que os sistemas planetários rebelados lutam para se libertar de sua opressão. A nova trilogia, situada cronologicamente antes da primeira, acaba com “A vingança dos Sith” esta semana. Esse novo episódio mostra como o império surge a partir da deterioração da República.

O personagem central de toda a trama é Anakin Skywalker, um cavaleiro jedi que na infância foi escravo num planeta remoto. Anakin é corrompido e passa a agir guiado pelo lado negro da Força. Assim, volta-se contra seu mestre e ajuda o Império a se erguer e destruir os cavaleiros jedi. Ele se transforma em Darth Vader, talvez o mais temido vilão da história do cinema. Pelos filmes da trilogia original, entendemos que toda a bondade de Anakin mingua, tornando-o um tirano intergalático da mais alta estirpe, a ponto de perseguir seus próprios filhos e dar cabo de seu antigo mestre.

Darth Vader é um dos únicos personagens de toda a trama que, em literatura, pode ser entendido como “esférico”, ou seja, com profundidade psicológica. É ele quem vive nos filmes o conflito entre o bem o mal dentro de si, enquanto os demais personagens só o fazem “do lado de fora”, guerreando com suas armas e máquinas mirabolantes. Talvez seja essa profundidade psicológica que o torna, pelo menos no meu modo de ver, o mais humano de todos os personagens que aparecem na saga. Ser do bem ou ser do mal? Vader é o único que assume sua humanidade ao ser os dois.

Difícil isso! Todos nós vivemos num mundo em que o bem o mal encontram-se separados, conjugados apenas pela oposição de um ao outro. E tem sido assim desde os tempos mais remotos: anjos contra demônios, mocinhos contra bandidos, cavaleiros jedi contra guerreiros sith. Nesse jogo maniqueísta, é custoso alguém reconhecer ser capaz de realizar o mal. É mais fácil acreditar que somos só do bem, só bonzinhos, e que esta é nossa verdadeira natureza. Mas a psicanálise nos ensina que há diversas formas de lidarmos com nossa identidade, e que não raro ela é construída com algumas máscaras, um pouco de maquiagem e outros retoques vaidosos.

Mas no final das contas a verdade é uma só: somos capazes do bem e do mal, e quem tiver alguma dúvida quanto a isso é só fazer uma breve consulta a um livro de História qualquer. Estamos fadados a ter esses dois lados dentro de nós, e não cabe a ninguém querer optar por um e esquecer o outro. Se assim fosse feito, seria doentio. Termos como “bem” e “mal” as ciências humanas não usam porque esbarraram em um perigoso viés moral, mas se conseguirmos abstrair essa questão, seria mais fácil entender que é a integralidade de ambos que constitui nossa natureza: somos feitos do bem e do mal tanto quanto da vida e da morte, do amor e do ódio, do dia e da noite etc. Esquecer de um implica em perder seu par antitético, e tudo, no final das contas, seria um verdadeiro nada.

“Se o bem e o mal existem, você pode escolher” diz a canção. Será? Se somos os dois, que escolha temos? Talvez o que diferencie os caminhos que cada um trilha para si seja o uso que se faz dessas potencialidades. E isso vai de cada um.

Para as pessoas da minha geração Darth Vader é um ícone. Sua presença na tela do cinema, quase 30 anos depois de sua primeira aparição, ainda assusta. Mas não sei se o medo que Darth Vader desperta no espectador pelo seu semblante sombrio ou pelos seus feitos terríveis seja maior do que o medo de enxergar que nosso “lado negro”, bem no fundo, toma forma dentro de nós com uma face muito parecida com a nossa, sem máscaras carrancudas ou vozes robóticas, mas ainda assim assustadora.

(20/05/2005)

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Divãgações

Hoje começo a publicar na internet, através deste blog, os artigos e crônicas de minha autoria que são publicados pelo jornal O Imparcial de Araraquara, para o qual contribuo como colaborador.

Escrever crônicas tem sido um desafio a que me propus como forma de discutir algumas idéias, pensar sobre alguns temas, continuar meu aprendizado como psicólogo, e quem sabe até abrir oportunidades de contato e reflexão com quem lê minhas produções.

Minha idéia foi fazer uma coluna de psicologia que fugisse do academicismo presente no modelo de "guia", tão comum em jornais, e da superficialidade do padrão "auto-ajuda", tão freqüente em revistas. Ou seja, pensei em algo mais solto e do dia-a-dia para se pensar com a psicologia. Divagações, enfim!